O despejo de Maricarmen Abascal, uma senhora de 87 anos, de seu apartamento no nobre bairro do Retiro, em Madri, onde vivia há mais de sete décadas, tornou-se o estopim para uma onda de protestos massivos por moradia na Espanha. O incidente, ocorrido em 23 de setembro de 2026, mobilizou dezenas de milhares de pessoas que marcharam pela capital espanhola e acamparam na histórica praça Puerta del Sol, exigindo medidas políticas urgentes para lidar com a crescente crise habitacional no país. A indignação foi amplificada por imagens de Abascal sendo retirada de sua casa em uma maca, enquanto apoiadores tentavam, sem sucesso, impedir a ação.
O gatilho da indignação
O caso de Maricarmen Abascal, que residia no apartamento alugado por seu pai em 1956, ressoou profundamente com milhares de espanhóis que enfrentam dificuldades semelhantes. Após a mudança de proprietário do imóvel em 2018, o fundo de investimento Urbagestión aumentou drasticamente o aluguel mensal, de 500 para 2.650 euros, e posteriormente para 1.650 euros, um valor que se tornou insustentável para a aposentadoria de Abascal. A história, amplamente divulgada pela mídia, alimentou a crítica às empresas de investimento imobiliário, frequentemente apelidadas de “fundos abutres”, e às autoridades públicas, acusadas de inação diante da escalada dos preços e da escassez de moradias acessíveis. A própria Abascal questionou a percepção do governo sobre a gravidade da situação, perguntando em entrevista à RTVE se o primeiro-ministro Pedro Sánchez “não percebe, ou não quer perceber” a quantidade de despejos diários.
A crise imobiliária espanhola
A Espanha, apesar de ser a quarta maior economia da Europa, enfrenta um déficit habitacional estimado em 550 mil moradias, com Madri, Barcelona e Valência concentrando a maior parte da demanda. O aumento dos custos de vida, a renda estagnada e a pressão do turismo e da imigração têm levado muitos espanhóis a serem excluídos do mercado imobiliário. A situação é agravada pelo baixo percentual de moradias públicas subsidiadas para aluguel, representando menos de 2% do parque habitacional, contra uma média de 8% na União Europeia. Essa conjuntura social e econômica criou um terreno fértil para o descontentamento, transformando o despejo de Abascal em um símbolo da luta pela dignidade e pelo direito à moradia.
Pressão por legislação
Os manifestantes, liderados pelo Sindicato dos Inquilinos de Madri, exigem a aprovação de novas leis que ofereçam proteções mais robustas aos inquilinos, incluindo contratos de aluguel por tempo indeterminado e a proibição de despejos sem que haja moradia alternativa disponível. O primeiro-ministro Pedro Sánchez prometeu apresentar um Decreto Real sobre habitação em sua reunião de gabinete, em resposta direta às pressões sociais, e apelou por um esforço parlamentar para sua aprovação. No entanto, a falta de maioria governamental no Parlamento Nacional representa um obstáculo significativo para a sanção de novas leis. A urgência da questão é evidenciada pela duplicação do preço médio do metro quadrado de aluguel na Espanha em dez anos, atingindo 15,1 euros/m², e um aumento de mais de 50% no valor de compra.
O legado dos “indignados”
As manifestações recentes em Madri evocam memórias do movimento dos “indignados” de 2011, que também teve início na Puerta del Sol e se espalhou pelo país e pelo mundo em resposta a despejos, desemprego e medidas de austeridade. Embora o contexto econômico atual seja diferente, a crise habitacional e a sensação de abandono por parte das instituições criam um paralelo notável. A persistência dos protestos, mesmo após o anúncio de um acordo para que Maricarmen Abascal retornasse ao seu apartamento, demonstra que a questão da moradia transcendeu o caso individual, tornando-se uma bandeira para um movimento social mais amplo que clama por justiça e acesso à habitação digna.
O desfecho do caso Abascal, com seu retorno ao lar, representa uma vitória pontual para os ativistas, mas a batalha pela reforma da legislação habitacional na Espanha está longe de terminar. A pressão popular continuará a ser um fator determinante na agenda política, enquanto o governo busca equilibrar as demandas sociais com os interesses do mercado imobiliário e a necessidade de estabilidade econômica. As próximas semanas serão cruciais para observar se o governo conseguirá aprovar medidas significativas que atendam às reivindicações dos manifestantes e evitem que futuros casos como o de Maricarmen Abascal se repitam.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





