A dinâmica inflacionária brasileira atravessa uma fase de mudança estrutural, onde o componente fiscal superou os choques de oferta como o principal motor da desancoragem das expectativas. Segundo relatório recente do UBS BB, a resistência da inflação em convergir para a meta de 3% não é apenas um reflexo de pressões conjunturais, mas uma resposta direta à percepção de que a dívida pública segue em trajetória insustentável. Para os economistas Solange Srour, Débora Nogueira e Victoria Brant Roquetti, essa desconfiança limita drasticamente o espaço para que o Banco Central promova novos cortes na taxa Selic nos próximos trimestres.

O diagnóstico do banco é claro: o mercado financeiro, ao precificar títulos públicos, passou a exigir um prêmio de risco cada vez maior, refletindo as incertezas sobre a capacidade do governo em equilibrar suas contas. Quando a inflação implícita supera as projeções do Boletim Focus, fica evidente que o custo de reancorar as expectativas subiu, tornando a política monetária menos potente e exigindo juros restritivos por um período prolongado para conter a pressão sobre os preços.

A relação entre dívida e inflação

A tese central do UBS BB é que a eficácia da política monetária no Brasil está intrinsecamente ligada à credibilidade fiscal. Historicamente, o país já enfrentou episódios similares, como as crises de 2002 e o período entre 2011 e 2016, onde a deterioração das contas públicas corroeu a confiança dos investidores na condução da política econômica. Nestes cenários, mesmo patamares elevados de juros tornam-se insuficientes para conter a escalada inflacionária, pois a desconfiança sobre a sustentabilidade da dívida contamina as expectativas de médio e longo prazo.

O mecanismo que sustenta essa análise é a percepção de que, se a dívida pública cresce sem controle, o Banco Central terá, eventualmente, dificuldades em manter os juros altos. Seja pelo impacto na atividade econômica ou pela pressão sobre a própria dinâmica da dívida, o mercado antecipa que a autoridade monetária poderá ceder, o que retroalimenta as expectativas de inflação e eleva o prêmio de risco em toda a curva de juros.

O limite da política monetária

A transmissão da política monetária depende da confiança de que os pilares macroeconômicos estão alinhados. Quando investidores questionam a consistência entre o que o Banco Central sinaliza e o que o Tesouro pratica, o efeito dos juros altos sobre a economia real perde força. Juros de dois dígitos, por si só, não são uma panaceia se o prêmio de risco inflacionário embutido na curva de juros continuar subindo devido a temores fiscais.

Para os stakeholders, essa realidade impõe um cenário de cautela redobrada. Reguladores e gestores de portfólio observam que a reancoragem completa das expectativas não depende apenas de um aperto monetário, mas de uma melhora crível na trajetória das contas públicas. Sem essa convergência, a política monetária atua em um ambiente de ineficiência, onde o custo de manter a inflação na meta é desproporcionalmente alto.

Incertezas e o horizonte à frente

O que permanece em aberto é a capacidade do governo em sinalizar um compromisso fiscal que seja considerado crível pelo mercado. A história econômica recente sugere que a recuperação da credibilidade institucional é um processo lento e custoso, que exige mais do que promessas de curto prazo. A observação constante das próximas leituras de inflação implícita será o termômetro para medir se o prêmio de risco começará a ceder ou se a pressão sobre a curva de juros tende a se intensificar.

A questão que paira sobre o mercado é até que ponto a política monetária conseguirá carregar o peso do ajuste fiscal sozinha, sem comprometer ainda mais a atividade econômica. A resposta a esse dilema definirá o ritmo da Selic nos próximos trimestres e, consequentemente, a atratividade de ativos brasileiros num cenário global de maior volatilidade.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times