Uma nova corrida do ouro está em curso, mas seu epicentro não é o metaverso ou a inteligência artificial generativa. Empreendedores que antes criavam aplicativos de podcast, redes de cafeterias ou plataformas de e-commerce estão agora pivotando para um dos setores mais antigos e fechados do mundo: a indústria de defesa. Eles estão construindo a próxima geração de drones, mísseis e bombas, movidos por uma mistura de fervor patriótico, oportunidade de mercado e a convicção de que podem fazê-lo melhor e mais rápido que os gigantes estabelecidos.
Segundo uma extensa reportagem do Business Insider, o fenômeno é global e catalisado diretamente pela guerra na Ucrânia. O conflito não apenas serviu como um alarme geopolítico, mas também como um laboratório de inovação em tempo real, expondo a lentidão dos conglomerados de defesa tradicionais. Para fundadores acostumados com a velocidade e a mentalidade de disrupção do Vale do Silício, a oportunidade parece clara: aplicar o manual das startups para reinventar a arte da guerra.
A convocação para a guerra
Até poucos anos atrás, a ideia de um fundador de tecnologia se aventurar na indústria de defesa era um tabu. Como um dos entrevistados pela reportagem resume, em certos círculos era mais aceitável "operar um site pornô do que trabalhar com defesa". A invasão da Ucrânia mudou radicalmente essa percepção. O conflito transformou o trabalho no setor de uma atividade moralmente ambígua para uma causa quase heroica. Agora, dizer que trabalha com defesa pode render "um abraço", segundo Karl Rosander, que trocou a liderança de uma plataforma de podcasts na Suécia pela fundação da Nordic Air Defense, uma fabricante de drones interceptadores.
A mudança de atitude não é apenas cultural. Governos ocidentais, notadamente o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, estão ativamente cortejando esses novos players. Com iniciativas como "pitch days" e programas de incubação, as agências militares criam pontes para que startups ágeis possam acessar o complexo e burocrático mundo dos contratos de defesa. A lógica é que a segurança nacional não pode mais depender exclusivamente dos ciclos de desenvolvimento de uma década de gigantes como Raytheon ou Lockheed Martin. É preciso apostar em um portfólio de inovações, e isso significa abrir as portas para quem pensa diferente.
O choque de culturas
Esses novos entrantes chegam com a ambição de aplicar o ethos do "move fast and break things" (mova-se rápido e quebre as coisas) a uma indústria avessa ao risco. Toru Tokushige, um empreendedor em série japonês que agora comanda a Terra Drone, resume o sentimento. Frustrado com a burocracia de seu país, ele foi à Ucrânia para desenvolver e testar seus drones em um ambiente de guerra, planejando voltar ao Japão com um produto já validado em combate. Sua meta é ser o "Elon Musk do Japão", uma ambição que reflete a escala do que esses fundadores acreditam ser possível.
Contudo, a realidade impõe um duro choque. A indústria de defesa opera sob uma lógica de relacionamentos de longo prazo, regulação extrema e ciclos de aquisição glacial. Karl Rosander, o sueco ex-podcast, relata o espanto de executivos do setor com sua pressa: "Eles me disseram: 'Karl, você não tem nada a ver com esta indústria. Funciona assim: nós jantamos e temos relacionamentos de longo prazo'". Outro empresário sueco, que está construindo uma fábrica de TNT para reduzir a dependência da Europa em relação à China, enfrenta atrasos para proteger espécies de sapos e ninhos de pássaros, uma burocracia ambiental impensável no desenvolvimento de um software.
O caminho para se tornar o próximo titã da defesa é, portanto, muito mais complexo do que simplesmente ter uma tecnologia superior ou um time mais ágil. A fusão da cultura de velocidade e disrupção do Vale do Silício com a realidade de alto risco e baixa tolerância a falhas da segurança nacional é um experimento em andamento. O resultado, seja uma defesa mais eficiente e barata ou um ecossistema de novos e poderosos "mercadores da morte", ainda está sendo escrito nos campos de batalha da Ucrânia e nas apresentações para investidores desses novos barões da guerra.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider





