As figuras de Rosalyn Drexler emergem de fundos monocromáticos com uma familiaridade estranha, típica da primeira geração da Pop Art. A razão é simples: ela as retirava diretamente de tabloides, revistas e cartazes de filmes B, para então transformá-las com seu uso distinto de cor. Seis décadas depois, suas pinturas permanecem surpreendentemente frescas, como atesta uma nova exposição individual em Nova York.

A mostra, intitulada “My Life Has a Life of Its Own”, inaugura um dos novos espaços da galeria Garth Greenan em Manhattan e joga luz sobre a produção da artista entre 1960 e 1969. O período marca sua imersão na apropriação de imagens comerciais, antes de se dedicar mais à dramaturgia. Segundo reportagem da publicação ARTnews, a iniciativa é parte de um esforço para reposicionar uma artista cuja carreira multifacetada — que incluiu passagens como lutadora profissional sob o nome “Rosa Carlo, a Vênus Mexicana” — desafiou rótulos e, por vezes, a deixou à margem do cânone.

Uma vida com vida própria

O título da exposição foi extraído de um dos cadernos de Drexler, uma artista que, em grande parte, foi autodidata. A mostra é dividida em seções que espelham a experiência de mergulhar em seu arquivo pessoal, com vitrines densas de recortes de jornais, manuscritos e referências. Ali, a lógica de sua obra se revela: um processo que o galerista Garth Greenan descreve como uma “edição agressiva”. Drexler não apenas copiava; ela recompunha. Figuras de um cartaz do filme “FBI Code 98” (1962), por exemplo, reaparecem em sua tela “F.B.I.” (1964), mas com a composição alterada sobre um fundo branco chapado.

Seu método era pragmático. Com um estúdio menor que o do marido, o também artista Sherman Drexler, ela trabalhava em escalas íntimas, comprando telas em pacotes. Esse formato dispensava a necessidade de ampliar as imagens encontradas em gráficas. Ela fixava a fotocópia na tela e a “enterrava em tinta”, como descreve Greenan. O interesse, segundo ele, era investigar como emoções intensas — “raiva, medo, amor, violência” — se traduziam em uma obra de arte, imbuindo a figura encontrada com essa carga emocional.

Da tela à passarela

A ressonância da obra de Drexler transcendeu as paredes da galeria. A poucos quarteirões de distância, a estilista nova-iorquina Rachel Comey apresentou uma coleção inteiramente inspirada na artista. Comey, que já havia colaborado com o mundo das artes, foi cativada pela biografia de Drexler, descrita pelo New York Times como um “turbilhão artístico que desafiou categorias”. Para a estilista, a força e a provocação com que Drexler se apresentava em sua época eram o principal atrativo.

O tributo de Comey evitou o caminho fácil de estampar as pinturas em tecido. A inspiração se manifesta de forma sutil: na paleta de cores vibrantes e de alto contraste, num cinto de prata que remete aos cinturões de campeonatos de luta, ou em brincos de pena que ecoam a obra “Our Lady of Doves” (1988). Modelos desfilaram carregando exemplares dos romances de Drexler, e uma das peças trazia o texto de um convite para sua primeira exposição individual, em 1960. “Eu não queria apenas pegar a arte dela e jogá-la no tecido”, afirmou Comey à ARTnews. “Preciso garantir que seja algo que faça sentido para nossos clientes e tenha significado.”

Para Garth Greenan, que trabalha há uma década para renovar o interesse em Drexler, a colaboração com a moda é a prova de que o esforço valeu a pena. A exposição, segundo ele, é menos sobre por que Drexler foi uma grande pintora e mais sobre por que ela é um “estudo de caso tão interessante sobre a arte como possibilidade”. Sua obra, antes pinçada de cartazes de cinema e notícias de jornal, agora retorna à cultura popular, não mais como fonte, mas como inspiração. Um ciclo completo para uma vida que sempre teve vida própria.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews