A gestora de ativos espanhola Miralta Asset Management, do Miraltabank, está promovendo uma recalibragem estratégica em seus portfólios: reduzindo a exposição a empresas de tecnologia e energia para reforçar posições em infraestrutura e no setor industrial. O movimento, reportado pela Forbes España, é uma resposta direta ao cenário de incerteza sobre a trajetória dos juros e ao aumento das tensões geopolíticas globais.

A decisão da Miralta, embora específica, captura um sentimento mais amplo que percorre os mercados de capitais. Após uma década de dinheiro barato que inflou o valuation de ativos de crescimento, especialmente em tecnologia, a era dos juros mais altos força uma reavaliação do risco. A busca por segurança e previsibilidade leva o capital a revisitar setores da economia “real”, cujos modelos de negócio são menos dependentes de lucros futuros e mais atrelados a fluxos de caixa presentes e tangíveis.

A reavaliação do risco

O racional por trás da rotação é um cálculo fundamental de finanças. Ações de tecnologia são, em essência, ativos de longa duração: seu valor é desproporcionalmente atrelado a expectativas de lucros e fluxos de caixa em um futuro distante. Em um ambiente de juros altos, a taxa de desconto aplicada a esses ganhos futuros aumenta, diminuindo seu valor presente e tornando-as menos atrativas.

Em contrapartida, setores como infraestrutura, materiais básicos e indústria pesada oferecem uma dinâmica diferente. Seus projetos frequentemente contam com contratos de longo prazo, receitas atreladas à inflação e uma demanda resiliente, pois atendem a necessidades essenciais. A Miralta aposta em tendências como eletrificação, automação industrial e a demanda por minerais estratégicos — temas que unem inovação tecnológica com a economia física.

Onde o capital encontra o real

O fundo de ações ‘Miralta Narval Europa’ ilustra a tese, com posições em gigantes como Schneider Electric, Siemens e ABB. Não se trata de uma aversão à tecnologia, mas de uma preferência pela tecnologia aplicada, que move o mundo físico. A estratégia tem se provado rentável, com o fundo entregando um retorno anualizado de 22,4% em um ano.

Curiosamente, o apetite por ativos reais se estende à renda fixa. O fundo ‘Miralta Sicav Sequoia’ inclui em sua carteira títulos de dívida do Brasil, ao lado de países como Estados Unidos, Itália e Colômbia. A inclusão de títulos brasileiros no portfólio de uma gestora europeia focada em segurança mostra como, no novo regime de juros, o prêmio oferecido por mercados emergentes volta a ser atraente para o capital global em busca de diversificação e rendimento.

A manobra da Miralta não é um evento isolado, mas um sinal dos tempos. A questão que fica para investidores e fundadores de startups é se esta rotação para o “tangível” é um ajuste cíclico e temporário ou uma mudança estrutural mais profunda na forma como o mercado precifica o futuro.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España