A luz fria de uma sala de cinema, o silêncio expectante da plateia, e então, a tela se ilumina. Não com a promessa de um futuro utópico impulsionado pela inovação, mas com a sombra de seus criadores. Nos últimos anos, Hollywood tem se debruçado sobre as vidas e os legados dos fundadores de gigantes tecnológicos, e a tendência é clara: a era do herói tecnológico deu lugar à era do vilão. De Mark Zuckerberg a Sam Altman, passando por Elon Musk e Elizabeth Holmes, os retratos cinematográficos mais recentes pintam um quadro sombrio, repleto de ambição desmedida, manipulação e consequências preocupantes.
"The Social Reckoning", novo filme de Aaron Sorkin, exemplifica essa mudança sísmica. Quinze anos após "The Social Network" celebrar o jovem Mark Zuckerberg como um prodígio genial, ainda que controverso, a nova obra o retrata com a gravidade de um tirano. Jesse Eisenberg, que deu vida a um Zuckerberg impetuoso e carismático, recusou-se a reprisar o papel, um sinal da evolução — ou degeneração — da imagem pública do CEO da Meta. Jeremy Strong assume agora um Zuckerberg de terno, com a severidade de quem comanda um império, onde a busca por lucro e a disseminação de desinformação se sobrepõem à segurança e à verdade. A trama se entrelaça com eventos como a insurreição de 6 de janeiro, pintando um retrato de poder incontestável e, por vezes, irresponsável.
A Sombra do Poder
Essa nova onda de produções não se limita a Zuckerberg. "Musk", documentário de Alex Gibney sobre Elon Musk, é descrito como uma peça ácida que o próprio bilionário chamou de "hit piece". "You Can See Everything" mergulha na psique de Elizabeth Holmes, a fundadora da Theranos, antes de sua ida para a prisão. E "Artificial", cinebiografia de Sam Altman, CEO da OpenAI, promete um retrato amoral e maquiavélico. A lista se estende para a televisão, com "The Altruists" explorando a ascensão e queda de Sam Bankman-Fried, da FTX. O contraste com filmes de uma década atrás, como "Jobs" e o próprio "The Social Network", é gritante. Naquela época, as narrativas focavam na jornada do herói, na superação de obstáculos e na celebração do gênio empreendedor. Hoje, o foco se desloca para as consequências, para a responsabilidade que acompanha o poder — ou, mais perturbadoramente, para a ausência dela.
O Reflexo da Ansiedade Pública
O que essa mudança no cinema diz sobre nós? Ela espelha uma ansiedade pública crescente sobre quem detém o poder na sociedade contemporânea. Os fundadores de tecnologia, antes vistos como visionários que moldariam um futuro melhor, agora são frequentemente percebidos como figuras com influência excessiva e, por vezes, com pouca prestação de contas. A capacidade de moldar o discurso público, influenciar eleições e impactar a saúde mental de milhões de pessoas — como evidenciado pelos vazamentos de documentos internos do Facebook que indicavam que a empresa priorizava "lucro sobre segurança" — gerou um ceticismo generalizado. Essa desconfiança se manifesta na arte, que, como um termômetro cultural, reflete o humor coletivo. A narrativa do gênio incompreendido que revoluciona o mundo dá lugar à figura do magnata cujas decisões têm repercussões globais, nem sempre positivas.
O Legado em Questão
Filmes como "The Social Reckoning" não apenas criticam as políticas de empresas como a Meta, mas também questionam a própria estrutura que permite a ascensão e a manutenção de tal poder. A decisão de abandonar a checagem de fatos em anúncios e a priorização de engajamento em detrimento da segurança são apresentadas como escolhas empresariais com profundas implicações sociais. A fala de Zuckerberg, "É um negócio", ecoa como um mantra de uma indústria que, por vezes, parece mais focada em métricas de crescimento do que em seu impacto no tecido social. A figura de um CEO cercado por "yes-men" e especialistas em relações públicas, que opta por manter o engajamento mesmo ao custo de medidas de segurança para uma parcela significativa de usuários, é um retrato de um modelo de negócios que parece ter chegado a um ponto de inflexão.
Perguntas para o Futuro
Essa crescente representação de fundadores de tecnologia como antagonistas levanta questões cruciais. O que diz sobre nossa sociedade o fato de figuras como Holmes e Bankman-Fried terem chegado tão longe com promessas vazias e narrativas midiáticas infladas? E como podemos, como sociedade, lidar com a influência desproporcional de homens como Zuckerberg e Musk, que moldam o que vemos, como nos sentimos e até em quem votamos? A arte, ao expor essas figuras sob uma luz crítica, nos força a confrontar a realidade de que o poder tecnológico, antes visto como uma força para o bem, pode também se tornar uma fonte de profunda preocupação. A tela do cinema, neste momento, serve como um espelho para nossas próprias inquietações sobre o futuro que estamos construindo, um futuro cada vez mais entrelaçado com as decisões e ambições daqueles que lideram a vanguarda tecnológica.
A era do otimismo tecnológico no cinema parece ter chegado ao fim, substituída por um realismo sombrio que nos convida a questionar o preço da inovação e a verdadeira natureza do progresso. O que virá depois que os créditos subirem, e a luz voltar a acender na sala de cinema, é uma questão que permanece em aberto.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider





