O dólar americano encerrou 2025 consolidado como a principal moeda de reserva do planeta, respondendo por 56,8% dos US$ 13,1 trilhões mantidos por bancos centrais ao redor do globo. Segundo dados do FMI, a dominância da divisa permanece robusta, superando amplamente a soma de todas as outras moedas utilizadas como reserva de valor pelos Estados nacionais.
A leitura aqui é que, apesar do discurso recorrente sobre a fragmentação do sistema financeiro internacional e os esforços de desdolarização, a realidade das reservas cambiais conta uma história de continuidade. Enquanto o debate geopolítico ganha tração, a alocação prática de ativos pelos gestores de bancos centrais segue ancorada na liquidez e na profundidade dos mercados de Treasuries dos EUA.
A resiliência da hegemonia americana
A supremacia do dólar não é um fenômeno acidental, mas o resultado de uma infraestrutura financeira de décadas. O tamanho da economia americana, aliado à confiança na estabilidade institucional e ao papel central da moeda no comércio global de commodities — especialmente o petróleo —, cria uma demanda inelástica pelo dólar. Bancos centrais buscam segurança, e o mercado de dívida pública dos EUA, por sua escala e transparência, permanece o destino mais eficiente para o capital institucional.
Embora a participação do dólar tenha sofrido uma erosão gradual ao longo da última década, caindo de patamares próximos a 65% para os atuais 56,8%, não houve uma substituição sistêmica. A diversificação, quando ocorre, tem se mostrado fragmentada em uma cesta de moedas secundárias, em vez de consolidar um novo polo de poder financeiro que pudesse rivalizar com a moeda americana.
O euro como alternativa consolidada
O euro ocupa o segundo lugar incontestável no ranking, detendo US$ 2,66 trilhões, o que representa 20,2% das reservas globais. A moeda europeia beneficia-se da dimensão econômica da Zona do Euro e da liquidez dos títulos públicos dos seus Estados-membros, servindo como o principal porto seguro para governos que buscam reduzir a exposição exclusiva ao risco americano.
Juntas, dólar e euro representam mais de três quartos das reservas mundiais. Essa concentração indica que, para além da retórica de multipolaridade, o sistema financeiro internacional continua operando sob um duopólio de fato, onde as demais alternativas, como o iene japonês (5,8%) e a libra esterlina (4,4%), desempenham papéis periféricos e complementares.
O recuo do renminbi chinês
Um dos pontos de maior atenção é o desempenho do renminbi, que viu sua fatia nas reservas globais cair para 2,0% ao final de 2025, recuando de um pico de 2,9% atingido em 2022. O movimento sugere que as expectativas de uma adoção acelerada da moeda chinesa, impulsionada por tensões geopolíticas, não se converteram em alocação efetiva nos balanços dos bancos centrais.
A dificuldade de converter o poder comercial chinês em hegemonia monetária reside nas limitações de capital e na menor transparência dos mercados financeiros do país. Em vez de migrarem para o renminbi, os gestores de reservas têm optado por diversificar em divisas como o dólar canadense, o dólar australiano e o franco suíço, mantendo a preferência por economias com mercados de capitais abertos e previsíveis.
Perspectivas para o sistema financeiro
O cenário atual levanta questões sobre o futuro da arquitetura financeira global. Se a desdolarização não está ocorrendo na velocidade projetada pelos críticos da hegemonia americana, resta saber se o sistema permanecerá estático ou se a crescente dívida pública dos EUA acabará por forçar um movimento de diversificação mais agressivo a longo prazo.
A observação dos próximos trimestres deve focar em como os bancos centrais de economias emergentes gerirão suas reservas diante da volatilidade dos juros globais. A manutenção desse status quo depende da percepção de que, apesar de todas as tensões, não existe alternativa com a mesma combinação de escala e confiança que o dólar oferece hoje. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Visual Capitalist





