O brilho efêmero das telas de celular na China agora é dominado por histórias que se desdobram em minutos, não em horas. O aplicativo Hongguo, da gigante tecnológica ByteDance, emergiu como um fenômeno cultural, disputando a atenção dos usuários com plataformas consolidadas e redefinindo o panorama do entretenimento digital no país. Em agosto, os aplicativos da ByteDance responderam por 41,8% do tempo total que os usuários chineses dedicaram aos 50 maiores aplicativos móveis, um salto significativo em relação aos 34,2% do ano anterior. Essa ascensão meteórica é impulsionada, em grande parte, por dois de seus produtos: Douyin, a versão chinesa do TikTok, e o próprio Hongguo, uma plataforma dedicada a dramas curtos.
O Hongguo, lançado em 2023, opera sob um modelo gratuito e sustentado por publicidade, funcionando de maneira análoga ao TikTok, mas com um foco exclusivo em narrativas dramáticas condensadas. Em junho, a plataforma já acumulava quase 370 milhões de usuários, segundo dados da firma chinesa QuestMobile. Esse crescimento não é isolado; ele se insere em uma tendência mais ampla de popularidade dos "dramas curtos" na China. Essas produções são concebidas para a experiência móvel, com episódios que duram poucos minutos e enredos que exploram desde romances intensos e vinganças até temas de fantasia e conflitos familiares.
A Ascensão do Conteúdo Condensado
O sucesso do Hongguo e do formato de dramas curtos na China é um reflexo de uma mudança sísmica nos hábitos de consumo de mídia. Em um mundo cada vez mais acelerado, onde o tempo é um recurso precioso, o conteúdo que pode ser consumido rapidamente ganha preferência. Ao contrário dos filmes de três horas ou das séries longas que exigem um compromisso de tempo considerável, os dramas curtos oferecem gratificação instantânea. Essa natureza fragmentada e acessível os torna ideais para o consumo em trânsito, em pausas curtas ou em momentos de lazer esporádicos, características intrínsecas ao uso de smartphones.
A perda de terreno de plataformas de streaming de longa duração, como iQIYI, Tencent Video e Mango TV, cujos tempos de uso caíram significativamente em agosto – 35%, 40% e 27% ano a ano, respectivamente –, corrobora essa mudança. Os usuários parecem estar migrando para experiências mais dinâmicas e menos exigentes. O formato de drama curto não apenas captura a atenção, mas também se adapta perfeitamente à economia da atenção, onde a capacidade de prender o espectador nos primeiros segundos é crucial.
IA como Motor da Produção
Um dos aspectos mais fascinantes da explosão dos dramas curtos é o papel cada vez mais proeminente da inteligência artificial (IA) em sua criação. O CEO do TikTok, Shou Zi Chew, destacou em um evento recente que as ferramentas de vídeo baseadas em IA podem reduzir drasticamente os custos de produção de anúncios e conteúdo. Essa observação é particularmente relevante para a indústria de dramas curtos na China, onde a IA já está sendo amplamente utilizada. A ByteDance, proprietária tanto do TikTok quanto do Hongguo, emprega modelos de IA como o Seedance para auxiliar na produção. Estima-se que a "esmagadora maioria" dos dramas curtos produzidos atualmente já se beneficia de alguma forma de processamento ou geração por IA. Essa tecnologia não apenas acelera o processo criativo, mas também permite a experimentação com diferentes estilos e narrativas, democratizando o acesso à produção de conteúdo em larga escala.
Essa integração da IA não se limita à China; o formato de drama curto está ganhando tração internacionalmente. A empresa de análise de mercado Tech Omdia prevê que o mercado fora da China gerará US$ 3 bilhões em receita este ano, com os Estados Unidos, o maior mercado individual dessa fatia, respondendo por cerca da metade do valor. A receita global total, incluindo o massivo mercado chinês, é estimada em US$ 11 bilhões em 2025, com projeção de crescimento para US$ 14 bilhões até o final de 2026. A IA, portanto, não é apenas uma ferramenta de eficiência, mas um catalisador para a expansão global deste formato.
Implicações e Futuro do Entretenimento
O fenômeno Hongguo e dos dramas curtos levanta questões importantes sobre o futuro do entretenimento digital. Para as plataformas de streaming tradicionais, o desafio é encontrar maneiras de se adaptar a essa nova demanda por conteúdo mais ágil, sem alienar sua base de espectadores existente. A integração de formatos mais curtos ou a exploração de novas narrativas que se encaixem em janelas de atenção menores podem ser estratégias necessárias. Para os criadores de conteúdo e anunciantes, a ascensão da IA na produção abre um leque de oportunidades, permitindo maior experimentação e alcance a custos potencialmente menores, mas também levanta debates sobre originalidade e o papel do toque humano na criação.
No Brasil, embora o consumo de vídeos curtos já seja massivo através de plataformas como TikTok e Instagram Reels, o formato de "drama curto" com episódios sequenciais ainda não atingiu o mesmo nível de popularidade que na China. No entanto, com a crescente familiaridade do público com narrativas condensadas e o avanço das ferramentas de IA, é plausível que formatos semelhantes ganhem espaço. A forma como as produtoras e plataformas brasileiras responderão a essa tendência, e se o mercado local desenvolverá suas próprias versões ou adaptações, permanece uma questão em aberto.
O que se desenha é um cenário de entretenimento cada vez mais fragmentado e personalizado, onde a capacidade de capturar e reter a atenção em um instante é o principal diferencial. A ByteDance, com seu domínio em formatos curtos e sua aposta em IA, parece estar posicionada de forma estratégica para navegar e, possivelmente, moldar esse futuro. A forma como o público global – e, em particular, o brasileiro – irá abraçar ou rejeitar essa nova onda de narrativas condensadas determinará os próximos capítulos desta revolução no consumo de mídia.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider


