A Dunas Capital, gestora independente espanhola, consolidou uma estratégia de investimento baseada na preservação de capital, optando por manter suas carteiras em níveis de risco reduzidos. Em um movimento que contrasta com o otimismo generalizado do mercado, a firma decidiu evitar as chamadas megatendências que impulsionaram os índices globais no último ano, especificamente os setores de inteligência artificial e defesa.

Segundo reportagem da Forbes España, a decisão reflete um ceticismo em relação às avaliações atuais desses ativos. Alfonso Benito, diretor de gestão de ativos da companhia, argumenta que o mercado tem sido movido por um impulso especulativo que ignora os fundamentos financeiros das empresas, criando distorções que a gestora prefere não integrar em seus portfólios.

Aversão ao momentum especulativo

A tese central da Dunas Capital é que o atual ciclo de alta em ações ligadas à inteligência artificial carece de sustentação fundamentalista. A gestora observa que a rotação de capital tem sido intensa, com o momentum se tornando o fator predominante na valorização de ativos em detrimento da análise de balanços. Para a equipe, o risco de uma correção é elevado quando as expectativas de crescimento superam a realidade operacional das companhias.

Essa abordagem conservadora levou a gestora a realizar ajustes significativos em suas posições ao longo do primeiro semestre de 2026. A firma encerrou participações em empresas como Logista, DHL, Total e Mercedes, buscando realocar recursos em ativos que apresentam balanços mais sólidos e consistentes, como o grupo de luxo LVMH, que é interpretado pela gestora como um ativo de qualidade com precificação mais justa.

Estratégia de renda fixa e ativos alternativos

No segmento de renda fixa, a gestora mantém um posicionamento de durabilidade curta, antecipando pressões inflacionárias e a necessidade de ajustes nas taxas de juros. José María Lecube, diretor de renda fixa, aponta que o cenário macroeconômico, especialmente na Europa, sugere um estancamento do crescimento, o que exige cautela redobrada. A firma tem buscado refúgio em dívidas de empresas de médio porte, muitas delas espanholas, que oferecem bons fundamentos e taxas atrativas.

Paralelamente, a Dunas Capital tem expandido sua atuação em investimentos alternativos, buscando diversificação através de fundos focados em leasing de aviação e infraestrutura estratégica no mercado ibérico. Esses veículos, voltados a investidores institucionais, visam capturar retornos que se desacoplam das volatilidades observadas no mercado acionário tradicional, reforçando a estratégia de longo prazo da casa.

Implicações para o mercado e investidores

A postura da Dunas Capital levanta questões sobre a sustentabilidade das valorizações em setores de tecnologia e defesa. Ao se posicionar como um player que prioriza a preservação de capital em detrimento do crescimento acelerado, a gestora ilustra a tensão entre investidores que buscam maximizar ganhos em ciclos de alta volatilidade e aqueles que priorizam a resiliência do portfólio.

Para o ecossistema financeiro, a estratégia serve como um lembrete de que o desacoplamento entre valorizações de mercado e fundamentos macroeconômicos não é sustentável indefinidamente. Enquanto o mercado global permanece inundado de liquidez, a cautela demonstrada pela gestora sugere uma preparação para cenários de maior restrição monetária e possíveis correções setoriais.

Perspectivas e incertezas

O que permanece incerto é a duração desse ciclo de liquidez elevada, que tem permitido que diversos mercados ignorem sinais de alerta macroeconômicos. A possível alteração na condução da Reserva Federal americana, sob a gestão de Kevin Warsh, é um fator que a Dunas Capital monitora de perto como um possível catalisador de mudanças no ambiente de liquidez global.

A gestora continua a observar atentamente os indicadores de inflação e as decisões do Banco Central Europeu para ajustar seu posicionamento. O mercado agora aguarda para ver se a aposta em fundamentos superará a força do momentum especulativo que, até o momento, tem ditado o ritmo das bolsas internacionais.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España