A economia dos Estados Unidos atravessa um período de crescimento condicionado a um grupo cada vez mais restrito. Segundo análise recente de Mark Zandi, economista-chefe da Moody’s, os 20% mais ricos da população são os únicos responsáveis por sustentar o ritmo de gastos do país. Enquanto o restante dos consumidores enfrenta uma estagnação real, a elite financeira mantém o consumo aquecido, impulsionada pela valorização de seus portfólios.

Esse fenômeno não é inédito, mas atingiu uma escala crítica. Atualmente, os gastos desse estrato superior representam 60% das despesas pessoais totais, superando a marca de 50% observada durante a bolha da internet no final da década de 1990. A disparidade entre a percepção pública e os dados macroeconômicos, que mostram um PIB em expansão, encontra explicação direta nessa assimetria de consumo.

A dependência do efeito riqueza

O chamado "efeito riqueza" é o mecanismo central por trás dessa dinâmica. Quando o valor dos ativos financeiros sobe, o consumidor de alta renda sente-se mais confiante para elevar seus gastos, independentemente da renda corrente. Como quase 90% das ações e fundos mútuos corporativos estão concentrados nas mãos desse top 20%, qualquer oscilação no mercado de capitais reverbera imediatamente na economia real.

Historicamente, essa dependência cria uma fragilidade sistêmica. Se o consumo está atrelado ao desempenho das bolsas, a estabilidade econômica deixa de ser um reflexo da produtividade ou do emprego para se tornar um subproduto do preço dos ativos. Em momentos de euforia, o ciclo se retroalimenta, mas a reversão pode ser abrupta caso o valor desses ativos sofra uma correção significativa.

Sinais de alerta no mercado

O otimismo atual está fortemente ancorado na promessa da inteligência artificial, que tem impulsionado os preços das ações de tecnologia. No entanto, indicadores como a relação preço/lucro (P/E), que atingiu 19x, sugerem que o mercado está entrando em um território de sobrevalorização. Zandi observa que, embora haja fundamentos tecnológicos sólidos, o movimento também é amplificado por fluxos passivos de fundos de índice que compram ações apenas por sua representatividade no mercado.

Essa dinâmica levanta questões sobre a durabilidade da tendência. O risco reside na possibilidade de que uma correção no mercado de ações não apenas elimine ganhos teóricos, mas force uma retração imediata nos gastos dos consumidores mais ricos. Em um cenário onde o consumo da massa permanece estagnado após o ajuste pela inflação, essa retração seria o gatilho para uma desaceleração econômica generalizada.

Tensões sociais e econômicas

A disparidade na economia em forma de K, onde a elite prospera enquanto a classe média e a base da pirâmide estagnam, traz implicações políticas profundas. A frustração do eleitorado com o custo de vida reflete a realidade de que, para 80% da população, o crescimento econômico é um conceito abstrato que não se traduz em poder de compra real. Essa tensão tende a se tornar um elemento central no debate político, pressionando por medidas de alívio fiscal e maior regulação.

Para o ecossistema de investimentos, a lição é clara: a resiliência do consumo americano é mais tênue do que os números agregados sugerem. O comportamento da economia está, na prática, refém da confiança de uma pequena parcela da população, tornando a volatilidade do mercado financeiro um risco direto para a saúde do consumo doméstico.

O futuro sob incerteza

O que permanece em aberto é a capacidade de sustentar esse modelo de crescimento sem uma correção severa. Caso o mercado de ações perca o fôlego, a economia americana poderá enfrentar dificuldades para manter sua trajetória atual. A questão fundamental é se a tecnologia conseguirá entregar lucros reais o suficiente para justificar os múltiplos atuais antes que o ciclo de gastos da elite se esgote.

Observar os próximos trimestres será essencial para entender se o atual patamar de gastos é sustentável ou se estamos diante de um ciclo de euforia prestes a encontrar seu limite. A dependência de um grupo tão restrito sugere que, qualquer que seja o desfecho, ele será sentido de forma desproporcional por todo o país.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune