A volta ao passado conservador
A liderança do Partido Conservador britânico, representada por Kemi Badenoch, sinaliza um retorno às raízes econômicas que marcaram a era de Margaret Thatcher. Em seu texto "The Right Way", Badenoch invoca explicitamente a declaração de política de 1976, "The Right Approach", estabelecendo um paralelo com a visão de que apenas a iniciativa privada gera riqueza e que impostos, regulações e gastos públicos podem ser obstáculos ao crescimento e à competição. O discurso de seu porta-voz de economia, Andrew Griffith, reforça a ideia de que os fracassos conservadores nos últimos 14 anos de governo decorrem do afastamento desses princípios fundamentais. A narrativa sugere que um retorno à ortodoxia thacherista seria a chave para revitalizar a economia britânica.
A leitura, no entanto, pode ser invertida: os erros podem ter sido, na verdade, uma consequência da adesão cega a tais preceitos. A dependência excessiva da lógica do mercado e da rentabilidade privada em detrimento das necessidades estratégicas do país ficou evidente em decisões como o fechamento do campo de gás de Rough, no Mar do Norte. Em 2017, o governo conservador aceitou a decisão de seu proprietário privado de que o campo, que antes fornecia cerca de 70% da capacidade de armazenamento de gás do Reino Unido, não era mais economicamente viável. Essa avaliação provou ser um erro grave quando a invasão da Ucrânia pela Rússia disparou os preços dos combustíveis fósseis, expondo a vulnerabilidade do Reino Unido como importador líquido de energia e altamente dependente do gás.
O custo da priorização do lucro
O episódio do campo de Rough ilustra um ponto crucial: a priorização da lucratividade privada sobre a segurança e as necessidades nacionais. A decisão de reativar o campo em 2022, após o choque geopolítico, demonstra a miopia de uma política econômica que negligencia a resiliência estratégica em favor da eficiência de mercado de curto prazo. Kemi Badenoch atribuiu o fechamento anterior a "falsas economias", mas a análise subjacente aponta para uma falha sistêmica em avaliar o valor estratégico de ativos essenciais. A lição aqui é que a segurança energética, assim como outras infraestruturas críticas, não pode ser inteiramente deixada à mercê das flutuações e decisões de mercado, especialmente em um cenário global cada vez mais instável.
A visão thacherista, focada na redução do Estado e na maximização da eficiência do setor privado, pode ter sido eficaz em determinados contextos históricos, mas o cenário atual demanda uma abordagem mais robusta. O Reino Unido, assim como outras economias desenvolvidas, enfrenta desafios complexos que incluem a transição energética, a necessidade de infraestrutura moderna e a adaptação a um ambiente geopolítico volátil. Ignorar a necessidade de investimento público e estratégico em prol de um retorno a políticas de austeridade pode ser um caminho perigoso.
Implicações para o futuro
A perspectiva de um novo ciclo de cortes de gastos, como sugerido pela retórica conservadora, levanta sérias preocupações sobre a capacidade do Reino Unido de investir em áreas vitais como infraestrutura, pesquisa e desenvolvimento, e serviços públicos. A resiliência econômica não se constrói apenas com a redução de déficits, mas também com a capacidade de absorver choques e inovar. A dependência de mercados internacionais para suprimentos essenciais, como visto com o gás, pode ser uma fonte de vantagem competitiva em tempos de estabilidade, mas se torna um calcanhar de Aquiles em tempos de crise.
Para o Brasil, a lição é clara: a busca por eficiência e atração de investimentos privados deve ser equilibrada com uma visão estratégica de longo prazo, que considere a importância de setores e infraestruturas considerados estratégicos. A experiência britânica serve como um alerta sobre os riscos de uma desregulamentação excessiva e da desvalorização do papel do Estado na garantia da segurança e do bem-estar da população. A busca por um crescimento sustentável exige um olhar multifacetado que vá além de dogmas econômicos.
Perguntas em aberto
O debate sobre a direção econômica do Reino Unido está longe de terminar. A questão central é se a estratégia conservadora, ao se apegar a princípios de décadas passadas, conseguirá responder às demandas complexas do século XXI. Será que a ênfase na desregulamentação e nos cortes de gastos será suficiente para impulsionar o investimento necessário em novas tecnologias e infraestruturas resilientes? Ou o país corre o risco de se tornar ainda mais vulnerável a choques externos, repetindo os erros do passado em um cenário global ainda mais incerto?
A capacidade do governo em equilibrar a disciplina fiscal com a necessidade de investimentos estratégicos definirá o futuro econômico do Reino Unido. A reativação de ativos como o campo de Rough sugere um reconhecimento tardio da importância da segurança e da resiliência, mas a continuidade dessa abordagem em outras áreas críticas permanece incerta. O caminho a seguir exigirá mais do que uma reverência ao passado; demandará uma visão pragmática e adaptativa.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Guardian UK Business





