O fenômeno climático El Niño emergiu como uma variável crítica para a política monetária brasileira, com economistas estimando um impacto relevante sobre o IPCA para os próximos anos. Segundo consulta realizada pelo Banco Central, o mercado projeta uma pressão adicional de 0,3 ponto percentual em 2026 e de 0,4 ponto em 2027 decorrente da redistribuição de chuvas e temperaturas.

A pesquisa, que reuniu quase 100 especialistas, marca a primeira inclusão formal do tema pelo BC desde o início de 2024. Embora parte desse choque já esteja precificada nas estimativas atuais, a magnitude do efeito climático sobre a inflação ainda gera incertezas, especialmente quanto à capacidade de convergência da meta de 3% dentro do horizonte relevante da autoridade monetária.

Dinâmica dos preços de alimentos

O setor de alimentos é o ponto de maior vulnerabilidade diante da intensificação do El Niño. Analistas do Citi destacam que o fenômeno tende a provocar secas severas no Nordeste, prejudicando culturas estratégicas como café, açúcar e frutas cítricas. O histórico de 2015–2016 serve como referência para o mercado, quando o Brasil enfrentou um choque inflacionário imediato após a ocorrência de um fenômeno de magnitude similar.

A expectativa é que a inflação de alimentos suba cerca de 1,47 ponto percentual nos dois meses subsequentes ao choque climático. A complexidade aumenta à medida que esse movimento não se restringe apenas ao impacto direto na oferta, mas ameaça contaminar as expectativas de inflação de longo prazo, criando um ciclo de inércia que dificulta a ancoragem das projeções.

Desafios para a política monetária

O cenário atual impõe um dilema técnico ao Comitê de Política Monetária (Copom). O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, já havia sinalizado que a combinação de choques de oferta — incluindo a pressão sobre os preços do petróleo pelo conflito no Oriente Médio — e o aquecimento das águas do Pacífico complica o gerenciamento da taxa Selic. O desafio reside em distinguir choques temporários de efeitos de segunda ordem que possam desancorar as expectativas.

Instituições como o BTG Pactual revisaram suas projeções para 2027, elevando a expectativa de inflação para 4,5%. A preocupação central é que a prolongação do ciclo de flexibilização monetária, diante de uma inflação resiliente, aumente o risco de desancoragem, forçando o BC a manter juros em patamares mais elevados por um período superior ao inicialmente planejado.

Implicações para o horizonte de metas

A convergência da inflação para a meta de 3% foi postergada para o primeiro trimestre de 2028, conforme reconhecido pelo próprio Banco Central em sua última ata. Esse ajuste de cronograma reflete a cautela da autoridade monetária em não reagir excessivamente a choques de oferta, ao mesmo tempo em que tenta preservar a credibilidade do regime de metas diante de um cenário climático adverso.

Para os agentes de mercado, a vigilância sobre os dados de curto prazo tornou-se fundamental. A inércia inflacionária, alimentada por preços de alimentos, pode transformar um choque climático passageiro em um problema estrutural de preços, testando a resiliência da política econômica brasileira em um ambiente global marcado por alta volatilidade de commodities.

Incertezas no radar macroeconômico

O que permanece em aberto é a extensão real da transmissão desse choque climático para o ano de 2028. A magnitude da resposta dos preços dependerá não apenas da severidade do fenômeno, mas da reação da política monetária e da percepção de credibilidade do Banco Central pelo mercado. A trajetória da Selic, portanto, permanece sob pressão.

Observar a evolução dos preços no atacado e o comportamento do mercado de trabalho será essencial para medir o grau de contaminação da inflação de alimentos sobre o setor de serviços. O equilíbrio entre a flexibilização necessária para o crescimento e a restrição necessária para a estabilidade de preços continua sendo o principal desafio do Copom.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times