Entre os dias 13 e 17 de agosto de 2026, uma praia em Bali, na Indonésia, se tornará o palco para uma reflexão sobre o futuro do design. A edição do evento Jia Curated reunirá criadores e marcas internacionais não em um centro de convenções, mas na areia da praia de Pengembak, com o oceano e a vegetação costeira como pano de fundo e participantes ativos.

Com o tema “Nature Weave” (Trama da Natureza, em tradução livre), a iniciativa subverte o modelo da galeria de arte ou do pavilhão de feiras. A proposta, segundo reportagem da publicação especializada Designboom, é dissolver a fronteira entre a criação humana e o mundo vivo. A tese editorial aqui é clara: o futuro do design não está em se inspirar na natureza, mas em coexistir e colaborar com ela de forma direta e regenerativa.

Um ecossistema, não uma exposição

O conceito central do evento é fundamentado no princípio indonésio de Gotong Royong, que pode ser entendido como um ecossistema de esforço coletivo e ajuda mútua. A curadoria, liderada por Budiman Ong, posiciona o evento como uma interseção de disciplinas, gerações e culturas que florescem juntas, em vez de uma simples mostra de objetos. “A questão não é mais como podemos nos inspirar na natureza, mas como podemos trabalhar ao lado dela de forma mais ponderada”, declarou Ong.

Essa filosofia se materializa na ausência de layouts convencionais. Os participantes são convidados a responder organicamente ao local, permitindo que materiais, texturas e intervenções arquitetônicas dialoguem com as forças do vento, da luz e da água. O objetivo é criar um ambiente que, seguindo os princípios da biofilia, nutra o bem-estar da comunidade. A paisagem não é um cenário, mas um colaborador que dita as regras do jogo, forçando uma abordagem menos extrativa e mais simbiótica.

Da maquete à matéria circular

O Jia Curated 2026 traduz essa visão em projetos tangíveis. A mostra “Architecture in Scale”, por exemplo, exibirá 25 maquetes de projetos asiáticos que tratam a natureza como substância viva, não como uma vista emoldurada por vidro. Em outra frente, a sustentabilidade deixa o discurso e vira matéria-prima: o Bell Living Lab apresentará materiais regenerativos feitos a partir de resíduos da produção de café, enquanto o ateliê STVMP exibirá objetos criados com sobras industriais.

A própria infraestrutura do evento segue essa lógica. A iniciativa “Waste to Wonder” (Do Lixo à Maravilha) reaproveita materiais de edições passadas, transformando coberturas antigas em guarda-sóis e caixas de embalagem em assentos públicos. O evento também promove colaborações interculturais, como um workshop com o designer holandês Sander Wassink utilizando bambu local e madeira recuperada, e uma mostra dedicada a designers das Filipinas, que integram conhecimento indígena com práticas sustentáveis.

Ao final, o Jia Curated se apresenta menos como uma feira de produtos e mais como um laboratório a céu aberto. Ele testa, em escala real, um modelo de criação que é consciente de seu lugar no mundo, priorizando o ciclo dos materiais e o conhecimento local. É um convite para que a indústria global do design repense suas premissas, trocando a extração pela regeneração e a inspiração distante pela colaboração íntima com o ambiente.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Designboom