Em Rafah, deslocado e sob o som constante das explosões, o escritor e fundador Hadee El-Sagher era assombrado por uma ideia mais assustadora que a própria morte: o apagamento. Morrer é o fim de uma vida. Ser apagado é a aniquilação da existência — a erradicação de qualquer prova de que alguém viveu, sentiu, amou e temeu. Enquanto bibliotecas e centros culturais eram destruídos em Gaza, a pergunta se impôs: o que restará desta experiência se ela não for escrita?

Foi dessa angústia, e não de um plano de negócios, que nasceu a Gaza Publications. A iniciativa, conforme relatado por seu fundador em um ensaio para a publicação literária Lit Hub, não é uma editora no sentido tradicional. É um esforço para preservar um legado no exato momento em que ele corre o risco de desaparecer. A missão é deixar evidências de que, por trás dos números de vítimas, existiram vidas plenas que se estendiam para muito além do instante de sua morte.

A ampulheta que não corre

A operação da Gaza Publications reflete a realidade de seu entorno. Sem acesso a gráficas, a impressão dos livros ocorre na Polônia, mas todo o trabalho de edição, revisão e design é feito por uma equipe de voluntários dentro da Faixa de Gaza. A comunicação é um desafio constante, com blecautes de internet que duram dias e geram a suspeita de que membros da equipe não tenham sobrevivido. Em uma ocasião, após um longo silêncio, El-Sagher descobriu que seus colegas o presumiram morto.

O próprio símbolo da editora é uma metáfora do tempo suspenso. O logo é uma ampulheta, mas com um bloqueio no meio, impedindo que os grãos de areia caiam. “Em Gaza, o tempo não se movia como no resto do mundo”, escreve o fundador. Sem trabalho, estudo ou planos, a vida ficou presa em um único momento: o da sobrevivência. A ampulheta paralisada, contudo, não simboliza o fim, mas a capacidade humana de criar significado mesmo na estagnação, e o poder da escrita de dar permanência ao instante fugaz.

Três vozes, uma só luta

Os três primeiros livros da editora são um mosaico da experiência humana sob cerco. The Man Who Looked Back, de Amer al-Masri, explora a vida interior que persiste sob os bombardeios. I Am at Your Door, de Reham Al-Sabe’, aborda a guerra pela perspectiva de mulheres, focando em como a falta de itens básicos de higiene afeta a dignidade. E The Owner of the Sea Shoe, de Bisan Natil, é um diário sobre o mundo das crianças nos campos de refugiados, entre o medo, a fome e a perda.

O lançamento do primeiro livro coincidiu com a notícia de que a prima de El-Sagher e todos os seus filhos haviam sido mortos em um bombardeio. “Como se pode celebrar um livro e perder entes queridos no mesmo dia?”, questionou-se. A resposta veio na percepção de que as duas coisas não estavam separadas. O livro que chegava ao mundo e a família que partia faziam parte da mesma luta: a batalha para que vidas não desapareçam sem deixar vestígios.

Ao retornar para o que restou de sua casa, El-Sagher encontrou os escombros, mas também uma pequena planta que havia sobrevivido intacta à destruição. Ele a observou por um longo tempo. A escrita, ele concluiu, é como aquela planta. Ela não pode parar a guerra nem trazer de volta os que se foram, mas pode nutrir algo dentro de uma pessoa quando tudo ao redor desmorona. É uma forma de testemunhar que alguém esteve aqui, um esforço para proteger o significado antes que a engrenagem da guerra transforme tudo em pó.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub