O brilho do ouro, no vocabulário da imigração, há muito tempo é associado à promessa de residência permanente e privilégios para os mais abastados. Programas de "golden visa" tornaram-se ferramentas globais, permitindo que fortunas se transformassem em passaportes para um novo lar, ou ao menos um refúgio seguro. Contudo, os Emirados Árabes Unidos parecem ter decidido que o ouro pode e deve brilhar para além dos cofres dos milionários. O país do Golfo, onde estrangeiros compõem 90% da população, redefiniu o conceito, transformando um visto outrora restrito a investidores em um programa guarda-chuva que abrange tanto capital quanto talento.
Originalmente lançado em 2019, o "golden visa" dos EAU oferecia uma década de residência em troca de um investimento imobiliário de, no mínimo, US$ 545 mil. A premissa era simples: dinheiro em troca de um pé na porta em um país com um ambiente fiscal atrativo e, para muitos, um estilo de vida desejável. No entanto, o programa não parou por aí. Ao longo dos anos seguintes, o escopo foi ampliado para incluir não apenas pesquisadores e professores, mas também médicos, enfermeiros, engenheiros, profissionais de tecnologia e até mesmo jogadores de e-sports. Essa expansão reflete uma estratégia deliberada de atrair e reter talentos em setores considerados cruciais para o desenvolvimento e a diversificação econômica do país, sem a necessidade de conceder cidadania plena a uma vasta população expatriada.
Um Modelo Híbrido de Atração
A abordagem dos Emirados Árabes Unidos se distingue de muitos programas de "golden visa" tradicionais. Em vez de se concentrar unicamente em fluxos de capital, o país mescla política de talentos com incentivos de investimento e uma estratégia de desenvolvimento industrial. Kristin Surak, professora de sociologia política na London School of Economics e autora de "The Golden Passport: Global Mobility for Millionaires", descreve o programa como uma fusão de políticas trabalhistas e industriais. O próprio nome "gold" é uma jogada de marketing, conferindo um ar de prestígio e exclusividade que, ironicamente, se estende a profissões que vão muito além da elite financeira. Dubai, por exemplo, concedeu mais de 1.400 "golden visas" a enfermeiros e parteiras, e mais de 223 a educadores. O objetivo é claro: construir setores específicos, como a indústria de games, que até 2033 visa criar 30.000 empregos e adicionar cerca de US$ 1 bilhão ao PIB, já abrigando mais de 350 empresas do ramo.
Segurança e Estilo de Vida em Xeque?
O apelo dos Emirados Árabes Unidos como destino para expatriados e investidores não se resume apenas aos incentivos fiscais, como a ausência de imposto de renda pessoal. Fatores como segurança, estilo de vida e oportunidades de negócios também desempenham um papel crucial. Vladlena Baranova, chefe jurídica da Immigrant Invest, uma consultoria especializada em programas de cidadania e residência, observa que clientes frequentemente escolhem os EAU por esses motivos. No entanto, a região do Golfo, e os próprios EAU, enfrentaram um teste de segurança significativo com os recentes ataques iranianos. Mísseis e drones atingiram alvos em vários estados do Golfo, incluindo hotéis de luxo e o aeroporto de Dubai. Embora as autoridades tenham agido rapidamente para mitigar os impactos, garantindo o retorno de residentes afetados e facilitando a renovação de vistos, a percepção de segurança pode ter sido abalada. Relatos indicam uma desaceleração nas consultas de residência em meses recentes, com a incerteza geopolítica influenciando o sentimento dos potenciais migrantes, embora a demanda tenha se mostrado resiliente.
Independência e Estabilidade para Expatriados
Para muitos profissionais estrangeiros, a independência proporcionada pelo "golden visa" é um dos maiores atrativos. Swanand Pagnis, cofundador de uma empresa de engenharia de IA, exemplifica essa perspectiva. Após se mudar para os EAU com um visto patrocinado pelo empregador, ele obteve o "golden visa", o que lhe permitiu patrocinar sua esposa e filha. A preocupação de que a perda do emprego pudesse significar a saída do país – e a desestabilização de sua família – foi aliviada. "Quando você está em um país estrangeiro, uma das alavancas que uma empresa tem sobre você é o visto", ele comentou. "O 'golden visa' me permite patrocinar minha família por conta própria." Essa autonomia é particularmente valiosa em um contexto de volatilidade geopolítica, onde a estabilidade pessoal e familiar pode depender de fatores externos. A agilidade do governo em responder a crises, como a recente, facilitando o retorno e a permanência de residentes, demonstra um compromisso em manter o apelo do país, mesmo em tempos turbulentos.
A expansão do programa de "golden visa" dos Emirados Árabes Unidos representa uma evolução sofisticada na gestão de migração e atração de talentos. Ao mesclar incentivos financeiros com a captação de profissionais qualificados, o país busca não apenas prosperar economicamente, mas também consolidar sua posição como um centro global de inovação e residência. A questão que permanece é se essa estratégia híbrida será suficiente para sustentar o fluxo de capital e talento diante de um cenário geopolítico cada vez mais complexo e imprevisível na região.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





