Allan Ruiz, investidor do mercado imobiliário paulistano, adquiriu um edifício abandonado na rua Roberto Simonsen, no Centro de São Paulo, sem imaginar a relevância histórica da construção. O que deveria ser apenas mais um projeto de retrofit transformou-se em uma descoberta arqueológica urbana ao identificar que o imóvel, erguido em 1919, foi projetado pelo escritório de Ramos de Azevedo, figura central da arquitetura paulista e autor de marcos como o Theatro Municipal e a Pinacoteca.

O processo de compra, ocorrido sem documentação completa ou plantas originais, revelou apenas um Habite-se de 1961. Foi a análise minuciosa de elementos arquitetônicos, especificamente a marca nos tijolos aparentes, que permitiu a Ruiz rastrear a origem do edifício até a antiga sede da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo. A confirmação definitiva veio através de registros no Arquivo Histórico Municipal, onde a assinatura do arquiteto foi finalmente localizada.

O peso da herança arquitetônica

A descoberta altera a natureza do empreendimento, que deixa de ser um projeto residencial convencional para assumir uma vocação cultural. O imóvel, tombado desde 2015, impõe desafios de restauro que exigem a preservação rigorosa da fachada e da volumetria original. A preservação do edifício, que permaneceu subutilizado por décadas, é vista pelo proprietário como uma oportunidade de manter a estética pré-modernista intacta, apesar da necessidade de adaptações para acessibilidade.

Historicamente, o edifício serviu como Policlínica entre 1919 e 1939, passando posteriormente ao patrimônio da Caixa Econômica Federal. O fato de ter ficado vazio durante quase 85 anos, embora trágico para a vitalidade da região central, evitou intervenções modernas que poderiam ter descaracterizado a estrutura original. Esse estado de conservação, quase acidental, é agora o principal ativo do projeto de restauração.

Mecanismos de valorização e engajamento

Ruiz tem utilizado as redes sociais como ferramenta de transparência e atração de investidores, documentando os bastidores da descoberta. A estratégia de divulgar a história do imóvel no perfil @recicloimoveis gerou um interesse público inesperado, com vídeos alcançando meio milhão de visualizações. Esse movimento demonstra como a narrativa histórica pode atuar como um componente essencial na viabilização financeira de projetos de restauro em áreas degradadas.

O engajamento digital tem permitido a organização de visitas guiadas e a ocupação temporária do espaço por artistas e curadores, transformando o prédio em um polo de interesse cultural antes mesmo da conclusão da reforma. Essa dinâmica sugere que a requalificação urbana pode se beneficiar de uma abordagem que integra a comunidade desde a fase de planejamento, mitigando o risco de isolamento do empreendimento.

Implicações para o Centro de São Paulo

A localização do edifício, próximo ao Pateo do Collegio e outros ícones históricos como o Solar da Marquesa de Santos, insere o projeto em uma rede de equipamentos culturais que tentam revitalizar o Centro. A responsabilidade de gerir um imóvel assinado por Ramos de Azevedo amplia o escopo da intervenção, forçando o proprietário a buscar profissionais especializados em restauro de murais, pisos e caixilhos.

Para o mercado, o caso ilustra a complexidade da regularização imobiliária em áreas tombadas, onde o custo do restauro é frequentemente elevado, mas o valor simbólico e cultural pode ser um diferencial competitivo. A viabilidade econômica do projeto dependerá, em última instância, da capacidade de captar recursos através de leis de incentivo ou parcerias privadas que compreendam a importância da conservação do patrimônio histórico.

O futuro do edifício histórico

Permanecem incertas as fontes de financiamento definitivas para a restauração completa do imóvel, bem como o modelo de gestão do futuro equipamento cultural. A transição entre a descoberta histórica e a execução da obra exigirá um equilíbrio delicado entre a preservação do passado e as exigências contemporâneas de uso e segurança.

O mercado observará como a iniciativa de Ruiz se desdobrará nos próximos meses, servindo como um estudo de caso sobre o potencial de edifícios subutilizados no centro da capital paulista. A persistência em manter a estética original, mesmo com os custos elevados de restauro, será o grande teste para este novo modelo de negócio que une preservação e iniciativa privada.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Metro Quadrado