Empresas americanas conseguiram navegar pelos desafios impostos pelo choque nos custos de energia, decorrente do fechamento do Estreito de Hormuz, mas a resiliência corporativa não eliminou as preocupações com a inflação futura. Segundo dados divulgados pelo Federal Reserve, em conjunto com a Duke University, a confiança dos executivos financeiros na saúde de suas próprias companhias contrasta com um pessimismo crescente em relação à economia nacional.

A pesquisa, que ouviu 530 executivos, revela que, embora dois terços das empresas tenham enfrentado custos de produção mais altos no último trimestre, apenas um terço repassou esses aumentos aos consumidores. Contudo, a parcela de firmas que aponta a inflação como sua principal preocupação saltou de 9,5% para 25% no segundo trimestre de 2026, sinalizando um ponto de inflexão na estratégia de preços.

A resiliência sob pressão

O comportamento das empresas americanas tem seguido um padrão de absorção de custos para evitar a perda de competitividade no mercado. A estratégia de manter os preços ao consumidor estáveis, mesmo diante de pressões externas, funcionou como um amortecedor durante o período mais crítico do conflito. No entanto, a sustentabilidade desse modelo é questionada, visto que as margens operacionais começam a ser comprimidas por uma inflação que se mostra mais persistente do que o esperado.

Historicamente, o efeito de preços que sobem rapidamente, mas caem de forma lenta, tem sido uma constante em choques energéticos. Com a oferta de petróleo restringida e os estoques estratégicos em níveis mínimos, as empresas encontram menos espaço para manobra. A leitura atual do mercado é que a capacidade de absorção atingiu seu limite técnico, e qualquer nova oscilação nos preços globais de energia poderá forçar um repasse inevitável para o consumidor final.

O mecanismo do repasse

O economista do Fed de Atlanta, Brent Meyer, destacou que a taxa de repasse de custos permanece baixa no momento, mas alertou para um cenário de risco. Se os preços do barril, atualmente em torno de US$ 74, permanecerem elevados ou voltarem a subir, a estimativa é que o repasse de custos possa atingir 90%. Esse movimento transformaria a inflação contida em uma pressão direta sobre o poder de compra da população.

O problema é exacerbado pela logística do Estreito de Hormuz. Mesmo com um acordo preliminar entre EUA e Irã, o tráfego de navios permanece significativamente abaixo dos níveis pré-guerra. A infraestrutura e as rotas comerciais foram alteradas, e a limpeza de minas no corredor central é um processo lento que mantém a oferta de energia sob incerteza constante, impedindo que os preços retornem ao patamar anterior ao conflito.

Implicações para o Fed

A política monetária enfrenta um dilema complexo. O novo presidente do Fed, Kevin Warsh, mantém uma postura rigorosa, buscando atingir a meta de inflação de 2%. Porém, a persistência de custos elevados em serviços e a pressão salarial complicam o cenário. Austan Goolsbee, do Fed de Chicago, observou que a economia americana tem recuado na luta contra a inflação, com fatores estruturais como custos de transporte e mão de obra mantendo os índices elevados.

Para o ecossistema de negócios, as implicações são claras: o ambiente de incerteza desestimula investimentos de longo prazo. A revisão das projeções de crescimento econômico pelos CFOs, que caíram de 2,1% para 1,8%, reflete a cautela de quem opera na ponta real da economia. A percepção de que a economia nacional está longe de um estado de excelência, mesmo com a saúde financeira individual das empresas preservada, cria um hiato de confiança difícil de fechar.

O horizonte de incertezas

O que permanece incerto é a velocidade com que a normalização das rotas comerciais ocorrerá e se o mercado de trabalho conseguirá absorver os ajustes de custos sem gerar uma espiral inflacionária. A atenção agora se volta para a capacidade das cadeias de suprimentos de se adaptarem a um novo patamar de preços de energia, que parece ser o novo normal.

Observar a evolução dos preços de serviços será crucial, dado que essa categoria tem demonstrado uma resistência maior à desinflação. A eficácia das medidas de política monetária dependerá, em grande parte, da resolução definitiva das tensões geopolíticas que ainda sustentam os preços acima das expectativas iniciais.

O cenário exige monitoramento constante, pois a resiliência demonstrada até aqui pode ser testada por novos choques de oferta ou pela incapacidade do mercado em sustentar margens reduzidas por mais tempo. A transição entre o alívio imediato e a estabilidade econômica de longo prazo ainda apresenta desafios significativos para o setor corporativo americano.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune