A inadimplência das famílias brasileiras atingiu seu ponto mais crítico em mais de uma década, alcançando 9,2% da carteira de crédito às pessoas físicas em junho de 2026. Este índice, que representa dívidas com atraso superior a 90 dias ou com indícios de não quitação integral, é o maior desde 2012, segundo o Relatório de Estabilidade Financeira (REF) divulgado pelo Banco Central (BC). O pico anterior foi registrado brevemente em 9,3%, contrastando com os 6,3% observados em 2021.
A deterioração do cenário de pagamento afetou de forma generalizada as diversas modalidades de crédito. Quatro setores específicos — cartão de crédito (12,7%), crédito rural (10,3%), financiamento de veículos (8,5%) e crédito consignado (5,0%) — atingiram seus recordes históricos de inadimplência. No crédito pessoal não consignado, a taxa chegou a 14,9%, embora ainda abaixo do pico de 16,5% de 2016. Esse quadro geral aponta para um estresse financeiro crescente entre os consumidores brasileiros.
Contexto e Mudanças Regulatórias
A análise do Banco Central sugere que a inadimplência é o principal fator por trás dessa escalada. Uma mudança regulatória implementada em janeiro de 2025, a Resolução 4.966 do Conselho Monetário Nacional (CMN), transferiu para os bancos a prerrogativa de definir o momento de considerar uma dívida como incobrável. Essa flexibilização permitiu que operações em atraso permanecessem nos balanços das instituições financeiras por mais tempo, inflando artificialmente os indicadores de inadimplência. O BC estima que, sem essa alteração, o índice de inadimplência do sistema financeiro seria 0,78 ponto percentual menor em junho, o que representaria cerca de 45% da alta observada desde dezembro de 2024. Contudo, o relatório ressalta que a tendência de alta na inadimplência seria observada mesmo sob as regras anteriores.
O Aperto no Orçamento Familiar
O pano de fundo para o aumento das dívidas em atraso é o aperto orçamentário enfrentado pelas famílias brasileiras. Apesar de indicadores macroeconômicos como a queda do desemprego e a elevação do salário médio, o comprometimento da renda com o pagamento de empréstimos atingiu o nível mais alto dos últimos 21 anos. O impacto é particularmente severo entre os tomadores de menor renda e se concentra em linhas de crédito de custo mais elevado, como cartões e empréstimos pessoais sem garantia. Em junho de 2026, o número de pessoas classificadas como "endividadas de risco" pelo BC chegou a 20,3 milhões, um aumento de 75% em relação a junho de 2021, representando 17% do total de devedores no sistema financeiro.
Implicações e Perspectivas Futuras
A perspectiva para o curto prazo não aponta para um alívio significativo. O relatório do BC prevê que o "risco de inadimplência aumentou e deve continuar pressionado no curto prazo", com projeções indicando que os ativos problemáticos permanecerão elevados na maioria das modalidades de crédito ao longo de 2026. Em resposta, os bancos sinalizam uma postura mais restritiva na concessão de novos empréstimos às famílias no segundo semestre. Diante desse cenário, o BC avalia a implementação de medidas macroprudenciais focadas nas linhas de crédito de maior risco, visando "reduzir o superendividamento". As opções em estudo incluem o endurecimento de exigências prudenciais para certas modalidades e um monitoramento mais rigoroso da capacidade de pagamento dos tomadores. No entanto, o relatório não especifica um cronograma para a adoção dessas medidas.
Estabilidade Financeira Sob Pressão?
Apesar da escalada da inadimplência, o Banco Central avalia que "não há risco relevante para a estabilidade financeira" do país. Essa avaliação se baseia no aumento das provisões para perdas por parte dos bancos e na manutenção de níveis confortáveis de capital e liquidez no sistema financeiro. A despeito da preocupação com o endividamento das famílias, a solidez das instituições financeiras parece, por ora, resguardada. As perguntas que ficam em aberto são sobre a eficácia das medidas futuras do BC e a capacidade de o governo e o setor privado encontrarem soluções para mitigar o problema do superendividamento sem comprometer o acesso ao crédito.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





