A transição energética nos Estados Unidos segue um curso que ignora, em grande parte, as recentes guinadas na política federal de Washington. Enquanto a atual administração prioriza a desregulamentação ambiental e o incentivo à produção de combustíveis fósseis, o mercado de energia limpa mantém um ritmo acelerado de expansão. Segundo dados do Center for Global Sustainability da Universidade de Maryland, fontes como solar, eólica e armazenamento em baterias representaram mais de 90% de toda a nova capacidade instalada no país em 2025.

Este fenômeno, que desafia a retórica política de curto prazo, é sustentado por uma convergência de fatores econômicos e estruturais. A queda acentuada nos custos das tecnologias renováveis, aliada à necessidade urgente de atender a uma demanda elétrica crescente — impulsionada pelo boom de data centers e pela eletrificação de frotas —, criou um ambiente onde o pragmatismo econômico se sobrepõe às disputas ideológicas nos corredores do poder federal em Washington.

A nova dinâmica da demanda elétrica

Após um período de estagnação relativa entre 2005 e 2020, o consumo de eletricidade nos EUA entrou em uma fase de aceleração. Projeções indicam que a demanda pode crescer entre 24% e 34% na próxima década, um salto impulsionado pela digitalização da economia e pela transição para veículos elétricos. Este aumento na demanda coloca pressão sobre a rede, forçando concessionárias e estados a buscarem soluções rápidas, baratas e escaláveis para evitar apagões e custos proibitivos.

Historicamente, a expansão da capacidade energética dependia de grandes usinas térmicas a gás, mas o último decênio marcou uma mudança estrutural. Desde 2011, a capacidade renovável superou todas as outras fontes. Com a aposentadoria massiva de usinas a carvão, que tiveram sua produção reduzida em mais de 50% nos últimos dez anos, o espaço na matriz energética foi preenchido majoritariamente por parques eólicos e solares, que se provaram não apenas mais limpos, mas economicamente mais competitivos.

O pragmatismo acima da política

Um dos pontos mais reveladores da pesquisa é a desconexão entre a agenda política federal e as decisões tomadas em nível estadual. O Texas, por exemplo, que carece de metas agressivas de descarbonização, lidera o país na expansão de renováveis. O estado aproveitou seu mercado de energia desregulado e processos de licenciamento mais ágeis para atingir quase 90 gigawatts de capacidade renovável em 2025. O Texas hoje gera mais energia a partir de fazendas solares do que de usinas a carvão.

Essa tendência de "transcender a política" ocorre porque a energia renovável é vista como uma questão de segurança energética e saúde pública. Estados como o Novo México e a Califórnia implementaram leis robustas de transição, mas mesmo em regiões mais conservadoras, a lógica de mercado prevalece. O custo marginal de operação de um parque eólico ou solar, após a instalação, é praticamente nulo, o que protege consumidores e empresas contra a volatilidade dos preços globais de gás e petróleo.

Implicações para o ecossistema

Para investidores e reguladores, o cenário atual aponta para uma resiliência estrutural. Enquanto o governo federal tenta reverter apoios, a infraestrutura básica do país está sendo moldada por forças de mercado que tornaram inviável o retorno ao carvão. A exposição contínua dos EUA aos mercados globais de combustíveis fósseis, exacerbada por tensões geopolíticas no Oriente Médio, reforça a percepção de que a independência energética nacional passa, inevitavelmente, pela diversificação da matriz.

Para o ecossistema brasileiro, que já possui uma matriz elétrica majoritariamente limpa, o caso americano serve como um estudo de caso sobre a importância da regulação estadual e da eficiência de mercado. A lição de que investimentos em infraestrutura e descarbonização podem prosperar mesmo em ambientes de incerteza política centralizada é um lembrete de que a transição energética é, antes de tudo, uma questão de eficiência econômica e competitividade industrial.

Desafios e perspectivas futuras

O que permanece incerto é a capacidade da rede de transmissão de acompanhar esse ritmo de expansão. A integração de grandes volumes de energia intermitente requer investimentos pesados em modernização e armazenamento, áreas onde a regulação federal ainda possui um papel determinante que não pode ser totalmente contornado pelos estados. O gargalo da infraestrutura de transmissão pode se tornar o principal entrave para a continuidade desse crescimento acelerado.

O mercado observará atentamente como os estados continuarão a gerir essa transição nos próximos anos, especialmente se a disparidade entre a política federal e as necessidades locais continuar a se aprofundar. A capacidade de manter o custo da energia baixo enquanto se moderniza a matriz será o teste definitivo para a resiliência do setor renovável frente a qualquer governo de plantão.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Carbon Brief