A imagem de um Deus que habita um eterno presente, imune à sucessão dos minutos e à erosão dos séculos, é um pilar da metafísica ocidental. Por séculos, a tradição anglofônica e continental consolidou a ideia de que a eternidade divina exclui qualquer forma de temporalidade. No entanto, o livro 'From Eternal to Everlasting', da historiadora da filosofia Lydia Schumacher, propõe uma ruptura com essa leitura convencional. Ao mergulhar nos textos dos pensadores franciscanos do século XIII, a autora não busca apenas uma revisão histórica, mas uma provocação sobre como concebemos a presença do divino no fluxo da criação.
Schumacher argumenta que, ao contrário do que se supõe, teólogos como Alexandre de Hales não abandonaram a eternidade, mas deslocaram o foco da simplicidade divina para a sua infinitude. A tese central é que essa mudança de ênfase alterou profundamente a compreensão da relação de Deus com o tempo. Em vez de um espectador distante, o Deus franciscano é apresentado como a causa que, em seu poder infinito, sustenta a duração de todas as coisas. A obra convida o leitor a reconsiderar se a eternidade é, de fato, um estado estático ou uma forma de conter a totalidade da existência temporal.
A virada da infinitude na Summa Halensis
O debate sobre a natureza de Deus na Idade Média costumava ser dominado pela categoria da simplicidade, herdada de autores como Agostinho e Boécio. A ideia de que Deus é simples significava que ele não poderia ser composto por partes ou sujeito a mudanças, o que o colocava fora da esfera do tempo. Contudo, Schumacher identifica na 'Summa Halensis' — obra central da escola franciscana — uma transição sutil, porém decisiva. O texto deixa de tratar a eternidade como um apêndice da simplicidade e passa a discuti-la sob a égide da infinitude ou imensidão divina.
Essa transição não foi meramente terminológica. Ao definir a eternidade como uma duração sem início, fim ou mutabilidade, os franciscanos preservaram a tradição, mas abriram espaço para uma nova interpretação. O ponto de ruptura, segundo a autora, reside na crença de que a eternidade é 'boundlessly capacious' (em tradução livre: infinitamente capaz de conter). Se a eternidade é, por natureza, infinita, ela não está apenas fora do tempo, mas possui o poder de conter todas as coisas duráveis. É nesse ponto que a relação entre o criador e a criatura ganha uma dinâmica nova, onde o tempo não é apenas ignorado, mas integrado ao poder divino.
A mecânica do tempo como movimento
Um dos aspectos mais fascinantes da análise de Schumacher é a influência da metafísica de Avicena sobre os franciscanos. Enquanto a aristotélica clássica via o tempo de forma estática, como um intervalo entre momentos, a perspectiva aviceniana introduz uma visão dinâmica. O tempo é compreendido como um fluxo contínuo, um movimento do presente que transita do futuro para o passado. Para os franciscanos, essa percepção de tempo como mudança constante era fundamental para entender como Deus se relaciona com o mundo sem, contudo, estar sujeito ao movimento.
O mecanismo proposto é elegante: Deus, como o Ser Necessário, permanece imutável, mas sua causalidade permite que ele 'acompanhe' o fluxo temporal. A hipótese de Schumacher é que essa concepção mais dinâmica de tempo harmoniza-se com a ideia de um Deus que, embora fora da sucessão, é o árbitro da duração de todas as coisas. A tensão entre o 'agora' humano, sempre mutável, e o 'agora' eterno de Deus torna-se, assim, a chave para compreender a providência divina sem recorrer a um determinismo rígido ou a um distanciamento absoluto.
Implicações para o livre-arbítrio e o conhecimento
O debate atinge seu ápice na questão do conhecimento divino sobre o futuro. Se Deus conhece o futuro, ele o conhece como algo que já aconteceu ou como algo que ainda está por vir? A resposta dos franciscanos, conforme explorada por Schumacher, é que Deus conhece todas as coisas não por observação, mas por causalidade. Para John Duns Scotus e, posteriormente, Guilherme de Ockham, a distinção entre o intelecto e a vontade divina é o que permite a existência da contingência humana.
Para os reguladores da ortodoxia medieval, essa visão apresentava um risco: se Deus causa tudo, como explicar o mal ou a liberdade das escolhas humanas? Ockham, ao reconhecer a dificuldade de explicar como Deus conhece os futuros contingentes, acaba por admitir que a razão humana encontra um limite intransponível. A conclusão de que o conhecimento divino é uma questão de fé, e não de demonstração lógica clara, marca o fim de uma era de otimismo metafísico. Para o leitor contemporâneo, esse debate espelha as dificuldades modernas de conciliar a onisciência com a autonomia individual.
O horizonte incerto da teologia
O que permanece em aberto é se a tentativa franciscana de oferecer uma concepção 'moderada' de eternidade é, de fato, filosoficamente sustentável. Schumacher nos apresenta um sistema que tenta equilibrar a transcendência absoluta com uma relação direta com o tempo, mas as críticas historiográficas apontam que as evidências textuais para uma 'eternidade como duração infinita' são, no mínimo, ambíguas. O uso de termos como 'sempiternus' na Vulgata, por exemplo, sugere que a mudança conceitual pode ter sido menos radical do que a interpretação moderna deseja crer.
Olhando para o futuro, a questão que persiste é se a filosofia da religião pode encontrar um meio-termo entre o Deus atemporal e o Deus que 'se move' com o tempo. A recuperação desses debates medievais não resolve o enigma, mas enriquece o léxico com o qual tentamos descrever o indescritível. Talvez o valor desta investigação não esteja em uma resposta definitiva, mas na persistência da pergunta sobre se o tempo, em última análise, é uma barreira ou uma ponte entre o infinito e o finito. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Notre Dame Philosophical Reviews





