O Las Playas Intaglio, um geoglifo com 272 pés de comprimento esculpido no solo do Deserto de Sonora, no Arizona, que existia há milênios, sofreu danos significativos em abril. Trabalhadores de construção, empenhados na edificação do muro de fronteira, abriram uma cicatriz de 50 pés através da antiga obra, dividindo a figura de um peixe em duas partes. Arqueólogos estimam que o geoglifo tenha cerca de 7.000 anos, superando em 6.000 anos a datação anterior. Essa nova datação o torna significativamente mais antigo que outros marcos mundialmente famosos, como Stonehenge na Inglaterra, as pirâmides do Egito e as Linhas de Nazca no Peru, estabelecendo-o como o geoglifo datado mais antigo das Américas.
Um Legado Ameaçado
O incidente levanta sérias preocupações sobre a preservação de sítios históricos e culturais em áreas de construção de infraestrutura. Russ McSpadden, defensor da conservação no Center for Biological Diversity, descreveu a destruição como um "tapa na cara da nossa história humana compartilhada". Ele relatou que cerca de 30% do geoglifo foi danificado, com a cabeça do peixe sendo separada do corpo. A Agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA informou que a porção restante do local foi protegida e que "continua as discussões com a tribo". No entanto, a agência não comentou a extensão total dos danos. Ativistas alertam que a destruição física do Las Playas Intaglio exemplifica uma ameaça mais ampla a terras públicas, ecossistemas desérticos e locais de herança indígena.
O Contexto da Construção e os Impactos
Pesquisadores David Whitley e Ronald Dorn, em seu estudo publicado em The SAA Archaeological Record, destacaram que a destruição contínua do Las Playas Intaglio é particularmente alarmante diante dos planos do governo federal para novas melhorias no muro da fronteira. Eles alertaram que a destruição completa seria "uma tragédia nacional e um escândalo internacional". Os intaglios, geoglifos criados raspando o solo do deserto, eram utilizados para rituais religiosos, segundo Whitley e Dorn. O Las Playas Intaglio está localizado em um antigo campo de lava na fronteira EUA-México, dentro do Cabeza Prieta National Wildlife Refuge, em terras ancestrais da Tribo Tohono O’odham. O refúgio, com mais de 800.000 acres de natureza selvagem, é uma área de grande valor ecológico e histórico.
Um Padrão de Destruição
O incidente no Las Playas Intaglio não é um caso isolado. O Departamento de Segurança Interna dos EUA emitiu uma série de isenções em 2025, suspendendo leis ambientais, culturais e de saúde pública para acelerar a construção do muro na fronteira sul do Arizona. Medidas semelhantes foram aplicadas na construção do muro no Big Bend National Park. McSpadden lamentou que "nada é sagrado agora para projetos na fronteira". Ele criticou a priorização da construção do muro em detrimento de leis e patrimônio histórico. Exemplos anteriores incluem o arrasamento do Monument Hill, um cemitério sagrado para os O’odham no Organ Pipe Cactus National Monument, em fevereiro de 2020, e a destruição de cactos Saguaro protegidos.
Perguntas em Aberto
A destruição do Las Playas Intaglio levanta questões urgentes sobre o equilíbrio entre segurança nacional, desenvolvimento de infraestrutura e a preservação do patrimônio cultural e ambiental. Como as autoridades planejam mitigar danos futuros a sítios arqueológicos e ecológicos sensíveis durante a expansão contínua do muro? Qual será o papel das tribos indígenas na proteção de suas terras ancestrais e locais sagrados? A comunidade internacional se manifestará contra a destruição de patrimônios históricos em nome da segurança fronteiriça? A resposta a essas perguntas definirá o legado da administração atual em relação à proteção do passado e do meio ambiente.
O incidente no Cabeza Prieta National Wildlife Refuge serve como um alerta sombrio sobre os custos muitas vezes invisíveis da construção de infraestrutura em larga escala, especialmente quando leis ambientais e culturais são suspensas. A perda de um artefato tão antigo e significativo como o Las Playas Intaglio é um lembrete da fragilidade da história humana diante do progresso moderno e da necessidade de uma abordagem mais consciente e respeitosa na gestão de terras públicas. A busca por segurança e controle de fronteiras não deve ocorrer à custa da obliteração de milênios de história e cultura.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Outside Online





