No universo onírico da PALY, marca de moda que se autodenomina um "espectro", a lógica padrão cede lugar a uma estética cultuada. Fundada em Los Angeles, a grife de $1.550 em jeans rasgados e camisetas de $495 se consolidou em seis anos, explorando a linhagem de Hollywood com talentos como Landon Barker e Max Madsen. A mais recente empreitada da PALY — que prefere ser chamada apenas pelo nome — é o filme de campanha para o outono/inverno de 2026, uma produção que foge do sol da Califórnia para um cenário rural e enigmático na França. A obra, dirigida por Pietro Coppolecchia, conta com a narração de Eric Roberts, o ator americano com o maior número de créditos vivos, uma figura que personifica a própria história de altos e baixos de Hollywood.
O Peso da Linha de Hollywood
A PALY construiu sua identidade explorando o “submundo de Hollywood através de uma lente contemporânea”, como explica Kyle Lindgren, cofundador da marca. A escolha de talentos com laços familiares profundos na indústria — os chamados “nepo babies” — não é acidental. Para Lindgren, esses indivíduos carregam um “peso, legado e história” que transcendem a fama momentânea. Eles representam o ciclo de vida do “sonho de Hollywood”, uma narrativa que a PALY busca traduzir em suas peças. A marca se distancia de astros efêmeros, focando em quem carrega a memória e a complexidade da indústria. Essa abordagem confere à PALY uma aura de autenticidade, mesmo quando a marca se aventura em locais inusitados, como um santuário de animais na França, distanciando-se da sua base em Los Angeles.
Eric Roberts: A Voz da Transformação
A participação de Eric Roberts no projeto é um capítulo à parte. Sua carreira, marcada por uma vasta filmografia e uma persona conhecida como “Badass”, adiciona uma camada de profundidade à campanha. Roberts, que confessa pouco conhecimento sobre moda além de Levi Strauss, foi introduzido à PALY por sua esposa e empresária, Eliza Roberts. “Ela disse que era ‘a moda’”, relembra o ator, aceitando o convite com a naturalidade que lhe é peculiar. A experiência de atuar em uma campanha de moda, para Roberts, se assemelha ao processo de dar vida a um personagem. “Quando me visto, estou me vestindo como o personagem. É muito importante para mim que minhas roupas não sejam minhas roupas; são as roupas do personagem. A moda informa meus personagens”, afirma. Essa imersão no papel, mesmo que por um breve momento em uma campanha, ressalta a conexão intrínseca entre a arte de vestir e a arte de atuar, onde a transformação é a moeda corrente.
A Metáfora da Circe em Terra Estrangeira
O filme da PALY F/W 2026 acompanha um casal francês em uma jornada surrealista, onde a linha entre humano e animal se torna tênue. A narrativa evoca a história de Circe, a feiticeira da Odisseia de Homero, que transformava homens em animais. Essa alegoria se alinha perfeitamente com a essência de Hollywood, uma indústria que, por natureza, transforma pessoas em personagens, e realidades em ficções. Lindgren descreve o filme como uma “retelling”, uma versão embelezada e recontada de histórias, espelhando a forma como Hollywood constrói seus próprios mitos e legados. A transformação do personagem principal em uma criatura diferente ao longo do filme é uma metáfora poderosa para a forma como o público molda a percepção de celebridades, até que a imagem projetada se torne a própria realidade.
Perguntas na Tela e na Alma
O filme da PALY não se propõe a vender roupas de forma explícita, mas sim a contar uma história que, ironicamente, desperta o desejo de vestir as peças que compõem esse universo. A abordagem é peculiar: em vez de focar na venda direta, a marca aposta na criação de uma atmosfera e em uma narrativa que ressoam com o público cult. A questão que permanece é se essa fusão entre moda, cinema e mitologia é apenas uma estratégia de marketing sofisticada ou um reflexo genuíno da complexidade da identidade na era digital. A campanha, com sua estética sombria e temática de transformação, convida o espectador a refletir sobre a natureza da persona, tanto no palco quanto na vida, e sobre como a linha entre o real e o performático se torna cada vez mais indistinta. A própria Hollywood, afinal, é o palco máximo dessa metamorfose.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Highsnobiety





