A expansão dos investimentos em infraestrutura no Brasil, impulsionada por um ciclo de financiamentos robustos do BNDES, pode esbarrar em um obstáculo crítico: a falta de engenheiros qualificados. Felipe Borim, superintendente de Infraestrutura do banco, soou o alarme, destacando que, embora a estruturação de projetos tenha avançado significativamente, a capacidade de execução da cadeia produtiva ainda é um desafio a ser superado.

O BNDES, segundo Borim, encerra o ciclo iniciado em 2023 com mais de R$ 300 bilhões em financiamentos aprovados para o setor de infraestrutura. Essa cifra expressiva demonstra o apetite do banco e, presumivelmente, do mercado, por impulsionar o desenvolvimento de obras essenciais para o país. No segmento ferroviário, por exemplo, oito projetos estruturados, incluindo iniciativas de grande porte como Ferrogrão, Fico e Fiol, já somam cerca de R$ 160 bilhões em investimentos previstos. O banco também ampliou o prazo de financiamento para projetos ferroviários para até 40 anos, um movimento que visa oferecer maior segurança e viabilidade a empreendimentos de longo prazo.

A Fome de Talentos na Engenharia

A aparente contradição entre o volume de recursos disponíveis e a capacidade de execução não é um fenômeno novo, mas ganha contornos de urgência no cenário atual. A formação e retenção de engenheiros têm sido um debate recorrente no Brasil, com universidades e o mercado de trabalho em constante tensão. A complexidade dos projetos de infraestrutura, que exigem especializações diversas e equipes multidisciplinares, agrava a situação. Sem um número suficiente de profissionais capacitados para planejar, projetar, gerenciar e executar as obras, mesmo os projetos mais bem estruturados e financiados correm o risco de atrasos, estouros de orçamento ou, no pior cenário, de serem paralisados.

O alerta do BNDES sugere uma necessidade de planejamento de longo prazo que vá além da simples alocação de recursos financeiros. É preciso pensar na formação de capital humano, na atração de talentos para o setor e na criação de um ambiente que incentive a permanência desses profissionais no país e nas áreas de atuação que mais necessitam. A infraestrutura é um motor de desenvolvimento econômico e social, gerando empregos e facilitando a circulação de bens e pessoas, mas sua materialização depende intrinsecamente da expertise técnica disponível.

O Ciclo Virtuoso (e seus Gargalos) da Infraestrutura

O ciclo de investimentos em infraestrutura no Brasil tem sido marcado por avanços na estruturação de projetos, muitas vezes facilitados pela atuação de bancos de desenvolvimento como o BNDES. Essa fase envolve a modelagem financeira, a análise de viabilidade técnica e econômica, e a obtenção das licenças necessárias. Quando essa etapa é bem-sucedida, como parece ser o caso dos R$ 300 bilhões citados, cria-se um ambiente propício para a atração de capital privado e a execução das obras.

Contudo, a execução é a etapa mais intensiva em mão de obra e gestão. É aqui que a escassez de engenheiros se torna um gargalo. A falta de profissionais em áreas como engenharia civil, mecânica, elétrica e de transportes pode impedir que as empresas contratadas tenham a capacidade técnica necessária para dar andamento aos projetos. Isso pode levar a uma maior dependência de consórcios, terceirização de serviços especializados e, em alguns casos, à busca por profissionais estrangeiros, o que nem sempre é uma solução viável ou econômica.

Implicações para o Desenvolvimento e o Mercado

A iminência de um gargalo na execução de projetos de infraestrutura tem implicações diretas para o desenvolvimento econômico e social do Brasil. Obras de infraestrutura são fundamentais para aumentar a competitividade do país, reduzir custos logísticos, atrair investimentos estrangeiros e melhorar a qualidade de vida da população. Atrasos ou paralisações podem comprometer esses objetivos, gerando um efeito cascata negativo.

Para o mercado, a escassez de engenheiros pode significar um aumento nos custos de contratação, maior disputa por talentos e, potencialmente, a necessidade de as empresas investirem mais em programas de formação e capacitação interna. Reguladores e o próprio BNDES podem precisar pensar em políticas que incentivem a formação de engenheiros e a atração desses profissionais para o setor, talvez por meio de bolsas de estudo, parcerias com universidades ou programas de mentoria.

O Que Observar Adiante?

A declaração do superintendente do BNDES lança luz sobre um desafio estrutural que demanda atenção contínua. Será crucial observar como o governo, as instituições financeiras, as universidades e o setor privado colaborarão para mitigar essa escassez. A capacidade de formar e reter engenheiros qualificados determinará, em grande medida, o sucesso ou o fracasso dos ambiciosos planos de infraestrutura do Brasil.

Questões sobre a adequação dos currículos universitários às demandas atuais do mercado, a atratividade da carreira de engenharia no Brasil em comparação com outras profissões ou oportunidades no exterior, e a eficácia de programas de incentivo à formação e capacitação profissional merecem acompanhamento atento. A concretização dos projetos de infraestrutura dependerá, em última instância, da disponibilidade de cérebros e mãos para realizá-los.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Exame Inovação