A vulnerabilidade industrial dos Estados Unidos encontrou um ponto cego crítico: o fornecimento de terras raras. Segundo reportagem da Fortune, a McKinsey projeta um déficit global de até 30% na oferta desses minerais até 2035. A escassez é particularmente aguda para elementos como disprósio e térbio, essenciais para evitar a desmagnetização em motores elétricos e sistemas de guiagem de mísseis, onde a produção fora da China deve suprir menos de 20% da demanda global.

O cenário reflete uma falha estrutural de longo prazo na estratégia econômica americana. Enquanto Washington focou em fortalecer o setor de semicondutores, a cadeia de suprimentos de minerais críticos permaneceu amplamente dependente da capacidade de refino chinesa. A leitura aqui é que o domínio de Pequim não decorre apenas da abundância geológica, mas de uma política deliberada de décadas focada no controle de processamento, tornando o mundo dependente de sua infraestrutura.

O domínio chinês como estratégia de Estado

O controle chinês sobre cerca de 70% da mineração e 90% do refino de terras raras não é um acidente de mercado. A doutrina de circulação dupla de Pequim, que busca isolar a China de dependências externas enquanto torna o mundo dependente de sua indústria, encontrou nessas matérias-primas um alicerce estratégico. Diferente de empresas privadas ocidentais, as estatais chinesas operam com o objetivo de cumprir metas nacionais, permitindo que absorvam prejuízos ou inundem o mercado para inviabilizar concorrentes estrangeiros.

Historicamente, o mercado ocidental falhou em manter a continuidade. O colapso da Molycorp em 2015, que operava a mina de Mountain Pass, é o exemplo clássico de como a estratégia de preços chinesa pode desmantelar competidores nascentes. Sem uma demanda garantida ou uma infraestrutura de refino integrada, tentativas isoladas de independência mineira tendem a sucumbir diante da escala e do controle de custos exercido por Pequim.

O desafio da integração da cadeia de valor

O gargalo real não reside apenas na extração do minério, mas nas etapas subsequentes: lixiviação, extração por solventes e redução metálica. Cada fase exige instalações especializadas e mão de obra técnica escassa no Ocidente. Mesmo com o aporte de recursos, o ciclo de capital e a necessidade de licenciamento ambiental tornam a construção de uma cadeia de suprimentos autossuficiente um processo de longo prazo, difícil de ser acelerado por medidas políticas de curto prazo.

Washington tem buscado mitigar esse risco através de parcerias com Austrália, Malásia e Tailândia, além de aportes diretos do Departamento de Defesa na MP Materials. Contudo, a eficácia dessas medidas depende da capacidade de fechar o ciclo produtivo. A análise aponta que, enquanto a demanda for apenas presumida e não apoiada por mandatos de compra, a vulnerabilidade persistirá, deixando a indústria de defesa e de veículos elétricos exposta a tensões geopolíticas.

Tensões geopolíticas e segurança nacional

As restrições de exportação impostas pela China em anos recentes, como medida de retaliação comercial, funcionaram como um teste de estresse para a manufatura americana. A interrupção pontual de fornecimento de samário, disprósio e térbio gerou alertas imediatos em montadoras e na base industrial de defesa. Esse cenário demonstra que qualquer escalada nas tensões em torno de Taiwan ou outras questões regionais pode paralisar linhas de montagem críticas em questão de semanas.

Para o ecossistema global, o risco é de uma fragmentação acelerada das cadeias de valor. Se o Ocidente não conseguir diversificar suas fontes e, mais importante, seu refino, a dependência de insumos chineses continuará sendo o ponto de pressão preferencial de Pequim. A questão para os próximos anos é se o ritmo de investimento em infraestrutura de processamento local será suficiente para neutralizar essa alavancagem estratégica.

O horizonte de incertezas estratégicas

O que permanece incerto é a velocidade com que o capital privado e o setor público conseguirão equilibrar a viabilidade econômica com a necessidade de resiliência. O histórico recente sugere que, sem uma coordenação industrial de longo prazo, as empresas ocidentais continuarão suscetíveis a movimentos de preços e restrições impostas por Pequim. O sucesso dependerá menos de subsídios isolados e mais da criação de uma rede de refino robusta.

Observar a implementação dos pactos com a Austrália e o uso de fundos como os do CHIPS Act será fundamental para medir o progresso. A transição energética e a modernização militar dependem desses elementos, e a paciência estratégica demonstrada pela China sugere que o desafio de desvincular a manufatura ocidental dessa dependência será uma das questões definidoras da próxima década tecnológica.

A dependência de insumos críticos não é apenas um problema de fornecimento, mas um teste de resiliência para as potências industriais que, por muito tempo, negligenciaram as bases de suas próprias cadeias de produção em prol da eficiência de curto prazo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune