A Espanha está se despedindo do dinheiro em espécie, mas não de forma homogênea. No segundo semestre de 2025, o país registrou 10,4 bilhões de operações de pagamento sem o uso de cédulas, um avanço de 10,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. O volume financeiro, contudo, cresceu apenas 1,9%, atingindo € 6,5 trilhões. Os dados, compilados no relatório de sistemas de pagamento do Banco da Espanha, pintam um retrato nítido da nova arquitetura financeira que se consolida na Europa.
Por trás dos números agregados, emerge uma especialização clara dos instrumentos de pagamento. A análise revela uma bifurcação funcional: de um lado, os cartões se firmam como o instrumento para as transações do dia a dia, de baixo valor; de outro, as transferências eletrônicas se consolidam como o veículo para movimentações de grande porte. Essa divisão de papéis não é apenas uma curiosidade estatística, mas um indicativo de como a infraestrutura financeira está sendo remodelada pela digitalização e pelos novos hábitos dos consumidores e empresas.
A anatomia do pagamento digital
Os cartões, especialmente na modalidade sem contato, são os protagonistas do varejo. Eles responderam por 65,9% do número total de operações, mas por apenas 3,4% do valor transacionado. O tíquete médio de € 32 reforça seu papel como substituto do dinheiro de bolso. A tecnologia de aproximação (contactless) é praticamente onipresente, representando 95,6% dos pagamentos presenciais com cartão. É a digitalização do cafezinho, do supermercado e das pequenas compras, um processo que se tornou irreversível.
Em contrapartida, as transferências eletrônicas contam uma história diferente. Embora representem apenas 15,8% do volume de transações, elas foram responsáveis por impressionantes 87,9% do valor total movimentado. O motor dessa dinâmica são as transferências imediatas, cujo número de operações cresceu 33,1% e o valor disparou 229,2% em um ano. Este fenômeno espelha o impacto do Pix no Brasil: um sistema de pagamentos instantâneos que canibaliza sistemas legados e se torna a espinha dorsal para transações de maior valor, tanto entre pessoas físicas quanto entre empresas.
Infraestrutura e o legado físico
Essa transformação digital deixa rastros no mundo físico. Segundo o relatório do banco central espanhol, o número de caixas eletrônicos (ATMs) no país encolheu 1% no período, enquanto a rede de terminais de ponto de venda (POS) expandiu 10,4%, superando 4,7 milhões de unidades. A mensagem é clara: a necessidade de sacar dinheiro diminui na mesma medida em que aumentam as oportunidades de pagar eletronicamente. A infraestrutura se adapta para um mundo com menos papel-moeda.
O cenário espanhol, com 2,5 cartões por habitante — em linha com a média da zona do euro —, oferece um laboratório relevante para mercados como o brasileiro. Embora o Brasil tenha vivenciado uma disrupção mais abrupta com a chegada do Pix, a tendência de fundo é a mesma: uma especialização funcional dos meios de pagamento. A experiência europeia, mais gradual, mostra que a convivência entre diferentes trilhos digitais tende a se organizar de forma pragmática, seguindo a lógica do valor e da conveniência de cada transação.
O debate, portanto, desloca-se. A questão não é mais se o dinheiro físico perderá sua primazia, mas como os reguladores e as instituições financeiras irão gerir a segurança, a interoperabilidade e os custos de um ecossistema financeiro que opera, na prática, em duas velocidades digitais distintas. A Espanha oferece um vislumbre de como esse futuro se desenha.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





