O setor energético espanhol consolidou, nesta semana, uma visão estratégica sobre o papel das chamadas moléculas verdes — hidrogênio, biocombustíveis de segunda geração e biogases — no processo de descarbonização do continente. Durante evento organizado pelo Club Español de la Energía (Enerclub), executivos de gigantes como Iberdrola, Repsol, Endesa e Moeve destacaram que essas alternativas são indispensáveis para reduzir a dependência energética da Europa em até 50% até 2040.
Segundo relatório elaborado pela Moeve em parceria com a PwC, a transição para fontes renováveis não se sustenta apenas pela eletrificação direta. A tese central é que as moléculas verdes atuam de forma complementar aos elétrons, sendo a única via viável para setores de difícil abatimento de carbono, como a indústria pesada e os transportes marítimo e aéreo.
O pilar da reindustrialização
A aposta espanhola na produção dessas moléculas baseia-se em uma vantagem competitiva geográfica e infraestrutural. Com condições climáticas favoráveis para a geração de energias renováveis, o país projeta capturar um impacto econômico de 15,6 bilhões de euros até 2040. A narrativa do setor é clara: o hidrogênio verde não é apenas uma ferramenta climática, mas um vetor de reindustrialização nacional.
Para as empresas envolvidas, o desenvolvimento desses ativos permite que a Espanha se posicione como o motor energético da União Europeia. A capacidade de produzir e exportar essas soluções reforça a soberania energética europeia, um objetivo central no pacote regulatório Fit for 55 e no plano REPowerEU, que buscam mitigar riscos geopolíticos de fornecimento.
Mecanismos de transição
A dinâmica proposta pelo setor energético foca na convivência tecnológica. Enquanto a eletrificação avança em veículos leves e residências, as moléculas verdes ocupam o espaço onde a rede elétrica falha ou é insuficiente. Esse modelo de coexistência permite que ativos de geração renovável sejam aproveitados plenamente, transformando o excesso de energia limpa em combustíveis densos e transportáveis.
Empresas como a Repsol já sinalizam investimentos massivos, com planos de atingir uma capacidade de produção de 1,5 milhão de toneladas de biocombustíveis anuais até 2028. Esse movimento demonstra que a transição energética está deixando a fase de testes e entrando em uma escala industrial, onde a infraestrutura existente de gasodutos e refinarias pode, em parte, ser adaptada para essa nova matriz.
Impactos e stakeholders
O cenário desenhado aponta para a criação de 181 mil empregos diretos na Espanha até 2040, um dado que atrai o interesse de reguladores e formuladores de políticas públicas. A tensão, contudo, reside na velocidade com que a infraestrutura de transporte e distribuição será adaptada para integrar essas moléculas ao mercado europeu de forma competitiva.
Para os concorrentes europeus, a liderança espanhola coloca pressão sobre outros países para acelerar seus próprios hubs de hidrogênio. A integração desses mercados é vista como essencial para que o custo dessas novas energias caia, permitindo que a indústria europeia mantenha sua competitividade global frente a blocos que ainda dependem fortemente de combustíveis fósseis.
Perspectivas futuras
Embora o otimismo seja evidente, a viabilidade econômica de longo prazo das moléculas verdes depende da estabilidade regulatória e da redução nos custos de produção. O mercado monitora de perto se os investimentos privados serão acompanhados por políticas de incentivo que garantam a demanda necessária para justificar a escala projetada.
A transição energética europeia entra em uma fase de maior complexidade técnica, onde a escolha entre diferentes rotas tecnológicas definirá os vencedores industriais das próximas décadas. Resta observar como a integração transfronteiriça dessas moléculas moldará o novo mapa energético do continente.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





