A Península Ibérica, apesar da proximidade geográfica e da longa história compartilhada, ainda enfrenta desafios significativos para alcançar uma integração econômica plena. Um recente relatório divulgado pelos Bancos Centrais de Espanha e de Portugal, intitulado «Perspectives on the Iberian Economic Integration», revela um quadro complexo: avanços notáveis em certos setores contrastam com um desenvolvimento incipiente em outros, especialmente no que tange a serviços, mobilidade de trabalhadores e fluxos de investimento financeiro não bancário.

O documento, apresentado durante o seminário «Iberian Economic Integration», destaca que a adesão conjunta à União Europeia em 1986 estabeleceu um marco fundamental para a aproximação econômica. A análise, organizada em torno das quatro liberdades do mercado único – livre circulação de bens, serviços, pessoas e capitais –, confirma que a interconexão entre os dois países é substancial, mas a sua distribuição é bastante heterogênea. O comércio bilateral de bens e a participação em cadeias produtivas conjuntas intensificaram-se consideravelmente desde a entrada na UE, refletindo uma dinâmica positiva no setor produtivo.

Integração Elétrica e Comercial: Pontos Fortes

Um dos destaques positivos do relatório é a integração excepcional observada nos mercados elétricos de ambos os países. Essa sinergia é impulsionada pela complementaridade entre a geração de energia solar em Espanha e a produção hidroelétrica em Portugal. Essa interdependência energética não só beneficia a estabilidade do fornecimento como também otimiza o uso dos recursos naturais disponíveis na região. O comércio de bens, por sua vez, tem se beneficiado de um ambiente regulatório mais harmonizado e da redução de barreiras alfandegárias, permitindo um fluxo mais robusto de produtos entre as duas nações.

Serviços e Mobilidade Laboral: Brechas Persistentes

Em contrapartida, o relatório aponta para um cenário de menor desenvolvimento em áreas cruciais para uma integração econômica profunda. O comércio de serviços, que representa uma parcela cada vez maior das economias modernas, ainda apresenta um grau de intercâmbio limitado entre Espanha e Portugal. Da mesma forma, a mobilidade laboral, um pilar essencial do mercado único europeu, demonstra estar aquém do potencial, sugerindo que barreiras não tarifárias, diferenças regulatórias ou mesmo culturais ainda dificultam a livre circulação de trabalhadores qualificados e não qualificados.

Investimento e o Papel do Mercado Único

A análise também aborda a questão do investimento financeiro não bancário, que se mostra relativamente pouco desenvolvido quando comparado a outras dimensões da integração. Isso pode indicar que, apesar da existência de um mercado único, a atração de capital para investimentos diretos ou em carteira ainda enfrenta obstáculos. Os pesquisadores ressaltam que o quadro jurídico do mercado único, embora tenha promovido uma integração significativa em certos segmentos, deixou outras áreas fragmentadas. Para superar essas disparidades, os especialistas sugerem o reforço da aplicação das normas existentes, maior cooperação regulatória, o reconhecimento mútuo de qualificações e licenças, além de investimentos em infraestruturas físicas e digitais que garantam a interoperabilidade dos sistemas.

O Caminho para uma Integração Holística

A conclusão do estudo é clara: a integração ibérica é um processo em andamento, com sucessos notáveis, mas com lacunas importantes a serem preenchidas. A necessidade de aprofundar a cooperação em serviços e mobilidade laboral é um chamado à ação para ambos os governos e para as instituições europeias. O caso de Espanha e Portugal serve como um estudo de caso valioso sobre os desafios e as oportunidades na consolidação de um mercado único verdadeiramente integrado, onde os benefícios se estendam a todas as esferas da atividade econômica. A jornada rumo a uma Península Ibérica economicamente coesa e resiliente exige um esforço contínuo e coordenado para derrubar as barreiras remanescentes e explorar todo o potencial de suas relações bilaterais.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España