A rede de alta velocidade da Espanha (AVE), por muito tempo um símbolo de modernidade e eficiência, vive uma crise de identidade. Sete meses após um acidente em Adamuz, na região de Córdoba, que resultou em vítimas, o sistema opera sob severas restrições de velocidade impostas pelo administrador de infraestrutura Adif como medida de segurança.

O corredor Madri-Zaragoza, um dos mais movimentados, é o retrato do problema. Um trajeto que antes era completado em cerca de 80 minutos agora leva entre 105 minutos e duas horas. Com a principal proposta de valor — a velocidade — comprometida, o trem perde competitividade frente ao carro, gerando uma evasão de passageiros e abalando a confiança no sistema, segundo reportagem do site espanhol Xataka.

O preço da segurança

Os números traduzem a desconfiança. O Instituto Nacional de Estatística da Espanha confirmou uma queda de 15,5% no número de passageiros de alta velocidade no primeiro semestre do ano. Apenas no corredor Madri-Zaragoza, existem 19 trechos com velocidade limitada. Em grande parte do traçado, a máxima caiu de 300 km/h para 230 km/h, mas há pontos críticos onde os trens não podem passar de 80 km/h.

A consequência é a perda do principal atrativo para o público corporativo: a possibilidade de ir e voltar no mesmo dia para um compromisso de trabalho com pontualidade. Quando a vantagem de tempo desaparece, o principal argumento de venda do trem-bala se desfaz. Especialistas ouvidos pela imprensa local já pedem uma auditoria completa do sistema ferroviário, argumentando que o problema vai além das obras pontuais pós-acidente.

Menos passageiros, menos reclamações?

Curiosamente, a União de Consumidores de Aragão aponta uma queda no volume de queixas, mas o motivo não é uma melhora no serviço. Operadoras privadas como Ouigo e Iryo não possuem compromissos de pontualidade rígidos, e a estatal Renfe foi obrigada pelo Congresso a reintroduzir os seus após tê-los removido. Menos reclamações, portanto, podem significar apenas menos canais para reclamar.

A queda na demanda, combinada com programas de incentivo do governo para jovens, pressionou os preços dos bilhetes para baixo, servindo como um alívio temporário para as operadoras. No entanto, a solução de longo prazo não está no preço, mas na restauração da previsibilidade.

Enquanto o Adif afirma que irá suspender as restrições à medida que as inspeções avançam, não há um cronograma definido para a normalização. Para o governo e para os passageiros, cada mês de atraso corrói ainda mais a imagem de um projeto de infraestrutura que era pilar do desenvolvimento espanhol. A questão que fica é como equilibrar a segurança imediata com a viabilidade de longo prazo do serviço.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka