O governo da Espanha aprovou um novo mecanismo de fomento para pequenas e médias empresas (PMEs), dotado com até €300 milhões. A iniciativa, batizada de Reinicia+ Fepyme DANA, visa oferecer uma linha de crédito com um duplo mandato: socorrer negócios impactados por emergências e, ao mesmo tempo, financiar projetos de inovação e sustentabilidade.

A medida surge como uma resposta a eventos como as graves inundações (conhecidas como DANA) que atingiram o país, mas sua ambição é mais ampla. A tese por trás do programa é que a reconstrução econômica após uma crise não deve se limitar a restaurar o que foi perdido, mas sim aproveitar a oportunidade para construir um tecido empresarial mais resiliente e competitivo. É um modelo que combina a urgência da ajuda humanitária com a visão de longo prazo do capital de risco.

Um modelo híbrido de fomento

Diferente de um subsídio a fundo perdido, o mecanismo operará por meio de empréstimos participativos, com valores que variam de €25 mil a €1,5 milhão. A estrutura de juros é variável, atrelada tanto à taxa Euríbor quanto à rentabilidade da empresa beneficiada. Essa condição alinha os interesses do Estado com o sucesso do negócio, uma característica que ecoa instrumentos de venture debt.

Com prazos de amortização de até sete anos e carência de dois, o programa busca dar fôlego para que as empresas se reestruturem. O critério de seleção é o ponto-chave: serão elegíveis tanto PMEs diretamente afetadas por desastres quanto aquelas que, localizadas nos territórios impactados, desenvolvam projetos com potencial de crescimento. A mensagem é clara: o capital público será direcionado para quem demonstra capacidade de se reerguer de forma mais forte.

O papel da Enisa e o paralelo brasileiro

A gestão do fundo ficará a cargo da Enisa, a agência pública espanhola de fomento à inovação. A entidade será responsável por analisar as solicitações e acompanhar a execução dos projetos, funcionando como um filtro técnico para garantir a alocação eficiente dos recursos. A Enisa tem um histórico consolidado no apoio a startups e PMEs inovadoras, o que empresta credibilidade e expertise à iniciativa.

O modelo espanhol oferece uma reflexão para o Brasil, que também lida com a crescente frequência de desastres climáticos com forte impacto econômico, como visto na tragédia do Rio Grande do Sul. Enquanto as respostas locais frequentemente se concentram em linhas de crédito emergenciais e subsídios diretos, a abordagem da Espanha integra o socorro imediato a uma estratégia de desenvolvimento regional baseada em inovação. É uma política pública que enxerga a crise como um ponto de inflexão, não apenas um passivo a ser coberto.

O sucesso do Reinicia+ dependerá da capacidade de execução da Enisa e da qualidade dos projetos selecionados. Contudo, a iniciativa se destaca como um experimento relevante na intersecção entre gestão de crise e política industrial, levantando a questão se este não seria um caminho mais sustentável para a reconstrução econômica em um mundo de choques cada vez mais frequentes.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España