A Espanha se prepara para enfrentar um cenário de aperto fiscal nos próximos anos. Segundo estimativas da Funcas, centro de pesquisas econômicas, o país precisará realizar ajustes orçamentários na ordem de 16,5 bilhões de euros, o equivalente a cerca de R$ 53 bilhões na cotação atual, distribuídos entre 2027 e 2028. A necessidade surge para corrigir um desvio acumulado no gasto primário líquido, que tem crescido acima do compromissado com as regras fiscais da União Europeia.

O economista Desiderio Romero, em análise publicada na revista Cuadernos de Información Económica da Funcas, aponta que, embora o déficit público espanhol esteja em trajetória descendente, o gasto primário líquido avança de forma mais acelerada. Essa dinâmica deteriora o saldo acumulado e exige ações corretivas. A projeção indica um ajuste de 5,3 bilhões de euros em 2027, possivelmente com aumento da tributação sobre o trabalho, e um montante ainda maior, de 11,2 bilhões de euros, em 2028.

Contexto Fiscal Europeu e Desafios Espanhóis

A União Europeia tem endurecido as regras fiscais, especialmente após o período de gastos extraordinários motivados pela pandemia e pela crise energética. O novo quadro fiscal europeu busca impor maior disciplina orçamentária, exigindo que os países mantenham seus gastos sob controle e reduzam seus déficits e dívidas públicas. A Espanha, assim como outros membros, enfrenta o desafio de equilibrar essas exigências com as necessidades de investimento em áreas sociais e de defesa, além de lidar com um ambiente de juros mais altos que encarece o financiamento da dívida pública.

O Desvio do Gasto e a Falta de Margem de Manobra

Análises indicam que a Espanha não aproveitou plenamente a recente fase expansiva da economia para fortalecer sua posição fiscal. O economista Diego Martínez adverte que o ajuste do saldo primário estrutural em 2025 deveria ter sido mais ambicioso, sugerindo um esforço adicional de cerca de 6,7 bilhões de euros. A prolongada prorrogação dos Orçamentos Gerais do Estado também é apontada como um fator que limitou a eficácia da política fiscal, apesar de o gasto total das administrações públicas ter crescido 19% (descontando juros e fundos europeus) durante o período, enquanto a arrecadação tributária aumentou cerca de 24%.

Implicações para as Contas Públicas e Prioridades Sociais

O desvio observado no gasto executado pelo Estado e pela Segurança Social, que superou em 78 bilhões de euros o previsto, limita a capacidade do governo de alocar recursos para novas prioridades sociais, como habitação e educação. A inércia do gasto dificulta a reorientação de recursos e a implementação de políticas públicas mais eficazes em áreas críticas para o bem-estar da população.

Sustentabilidade da Dívida em Juros Elevados

Um dos principais riscos para a sustentabilidade da dívida pública, segundo Daniel Gros, não reside no aumento do gasto com defesa, mas na possibilidade de os juros de mercado permanecerem estruturalmente elevados. O uso de cláusulas de escape para financiar defesa pode elevar a relação dívida/PIB em cerca de seis pontos percentuais. O desafio para o novo marco fiscal europeu será, portanto, manter a disciplina orçamentária em um cenário de financiamento mais oneroso, evitando que a trajetória de gastos comprometa a estabilidade financeira do país.

Perguntas em Aberto e Perspectivas Futuras

O cenário fiscal espanhol levanta questões sobre a capacidade do governo em implementar os ajustes necessários sem comprometer o crescimento econômico e o bem-estar social. A forma como a Espanha navegará entre as exigências fiscais europeias e suas prioridades internas definirá sua trajetória de sustentabilidade da dívida e sua resiliência a choques econômicos futuros. A observância das metas fiscais e a capacidade de adaptação a um ambiente de juros elevados serão cruciais para a estabilidade financeira do país nos próximos anos.

A Funcas sinaliza um caminho desafiador para as finanças públicas espanholas, onde a disciplina orçamentária e a gestão eficiente dos recursos serão determinantes para cumprir os compromissos europeus e garantir a sustentabilidade fiscal a longo prazo. O equilíbrio entre o controle do gasto e a capacidade de investimento em áreas estratégicas permanece como o principal enigma.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España