A ministra para a Transição Ecológica e o Desafio Demográfico da Espanha, Sara Aagesen, confirmou nesta quinta-feira que o governo mantém a previsão de realizar o primeiro leilão de energia eólica marinha do país antes do final deste ano. A declaração foi feita durante a inauguração de uma nova interconexão elétrica entre Espanha e Portugal, no município de Arbo, em Pontevedra.

O processo, que visa maximizar o potencial renovável espanhol, tem sido estruturado com base nos Planos de Ordenação do Espaço Marítimo (POEM). Segundo Aagesen, a estratégia do governo é garantir que a instalação de parques eólicos ocorra exclusivamente em locais onde exista uma clara aceitação por parte das comunidades e das autoridades regionais, um movimento que busca evitar conflitos sociais que frequentemente travam projetos de infraestrutura de grande escala.

O desafio da aceitação territorial

A busca por consenso não é apenas uma diretriz política, mas uma necessidade operacional. Aagesen enfatizou que a participação cidadã foi central na formulação dos POEM, e que o governo está atualmente analisando os resultados da consulta pública realizada sobre as bases do leilão. A ministra evitou confirmar se as primeiras instalações ocorrerão nas Ilhas Canárias, ressaltando que a análise técnica das informações recebidas ainda está em curso.

O tom cauteloso do governo reflete a complexidade de equilibrar metas ambiciosas de descarbonização com a resistência local. Em muitos países europeus, a instalação de turbinas offshore enfrenta oposição devido a preocupações com o impacto na pesca, no turismo e na biodiversidade marinha. Ao condicionar o leilão à aceitação, o Executivo espanhol tenta mitigar riscos de judicialização e atrasos crônicos no licenciamento ambiental.

Foco na cadeia de valor industrial

Além da geração de energia, o governo espanhol tem apostado no fortalecimento da cadeia de suprimentos industrial. Aagesen destacou a alocação de mais de 200 milhões de euros em subsídios destinados à adaptação de portos para o suporte à energia eólica marinha. Esse investimento visa capacitar a infraestrutura portuária para a montagem e manutenção de turbinas, criando empregos especializados e estimulando a economia local.

Um exemplo relevante desse esforço é a aliança entre os portos de A Coruña e Ferrol, na Galiza, que concentrou cerca de metade dos recursos destinados até o momento. O objetivo é transformar a Espanha em um hub industrial para o setor, aproveitando a expertise naval e portuária do país para exportar soluções tecnológicas para outros mercados europeus que também buscam expandir sua capacidade offshore.

Tensões e expectativas de mercado

A indefinição sobre o local exato dos projetos mantém investidores e desenvolvedores em compasso de espera. O setor de energia renovável aguarda a publicação dos critérios definitivos do leilão, que devem detalhar não apenas as zonas de instalação, mas também as condições de incentivo tarifário e as exigências de conteúdo local. A transparência nesses critérios será fundamental para garantir a competitividade das propostas.

Para o mercado, a aposta na eólica marinha é vista como um passo essencial para a transição energética da península ibérica. No entanto, a viabilidade econômica desses parques depende de uma logística robusta e de uma rede de transmissão capaz de absorver a carga gerada no mar. A interconexão com Portugal, inaugurada recentemente, é um sinal positivo de que a infraestrutura de rede está evoluindo para suportar esse novo volume de energia.

O horizonte do setor

O que permanece incerto é a velocidade com que o governo conseguirá conciliar as exigências técnicas com as demandas das comunidades locais. Embora o prazo de até o final do ano seja o objetivo oficial, a complexidade burocrática dos processos de licenciamento ambiental na Espanha pode impor desafios adicionais à execução do cronograma.

O setor de energia renovável continuará observando de perto como a administração pública gerencia o equilíbrio entre a celeridade necessária para a transição energética e a cautela política em relação ao território. O resultado deste leilão servirá como um termômetro para a viabilidade de futuros projetos offshore no país. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España