Em Nova York, uma startup chamada Danger Testing acaba de levantar US$ 2,6 milhões em capital de risco para construir... aplicativos que ninguém precisa usar por muito tempo. Fundada pelos engenheiros de software Los Touré e Marc Mueller, a empresa opera sob uma premissa que desafia a lógica do Vale do Silício: tratar apps como conteúdo efêmero e viral, não como produtos duradouros. Eles se autodenominam “appstars” e querem ser o “MrBeast dos aplicativos”.

A tese, segundo reportagem do Business Insider, é que na era da inteligência artificial generativa, o desenvolvimento de software deixou de ser um processo árduo e caro para se tornar um ato performático. Com mais de 50 aplicativos lançados, de paródias do Spotify a versões digitais de anúncios que podem ser vandalizadas, o foco da Danger Testing não está em métricas como retenção ou número de usuários ativos. O que importa é a viralidade, os comentários e o alcance nas redes sociais — a mesma lógica que rege a economia dos criadores.

O código como performance

O motor por trás dessa nova onda é o chamado “vibe coding”. O termo, cunhado por Andrej Karpathy, um dos membros fundadores da OpenAI, descreve a prática de usar assistentes de IA, como o Claude Code da Anthropic, para programar de forma rápida e intuitiva, guiando-se mais pela “vibe” do que por uma arquitetura de software robusta. A Danger Testing, por exemplo, gasta cerca de US$ 4 mil por mês com a ferramenta, um custo operacional que viabiliza a produção em escala de conteúdo interativo.

O objetivo de cada aplicativo não é resolver um problema, mas criar um “momento de screenshot” — um instante peculiar ou divertido que provoque o compartilhamento imediato. O modelo de negócio espelha essa estratégia. Em vez de assinaturas (SaaS), a receita vem de patrocínios e parcerias com marcas que buscam “manobras de marketing de software”. É a lógica do YouTube e do TikTok aplicada ao código: a audiência e a influência sobre ela são o verdadeiro produto, e os aplicativos são apenas o meio para construí-las.

Uma nova camada na Creator Economy?

O movimento da Danger Testing não é um caso isolado. Ele sinaliza uma tendência que já atrai o interesse de investidores e gigantes da tecnologia. Alexis Ohanian, cofundador do Reddit, investiu em plataformas de “vibe coding” como a Vibecode, apostando que as próximas grandes plataformas permitirão que qualquer pessoa “shippe” ideias criativas com a mesma facilidade com que posta conteúdo online. A Meta, por sua vez, adquiriu a equipe por trás do Gizmo, um app social que permitia criar minigames e conteúdo interativo, e prepara um lançamento similar.

Para os investidores, o apelo está na possibilidade de criar um formato de mídia que se destaque em meio ao excesso de conteúdo passivo e ao “AI slop” — o conteúdo de baixa qualidade gerado por IA. Para as empresas de tecnologia, esses criadores oferecem um canal para humanizar suas marcas. A própria Danger Testing já vislumbra o próximo passo: tornar-se uma espécie de “gravadora” para agenciar outros “vibe coders”, ajudando-os a construir suas próprias audiências.

A linha que separa o desenvolvedor do criador de conteúdo está se dissolvendo. Se antes a barreira para criar um aplicativo era primariamente técnica e financeira, a IA a deslocou para o campo da criatividade. A questão que permanece não é se mais pessoas podem criar aplicativos como conteúdo, mas se o público vai consumi-los com a mesma voracidade que devora vídeos e memes. A resposta definirá se os “appstars” são o futuro ou apenas uma nota de rodapé na história da economia da atenção.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider