O escritório argentino Estudio Futuro concluiu a reforma da PH Gainza, uma residência dos anos 1950 localizada em Buenos Aires. O projeto atua sobre uma tipologia habitacional típica da capital argentina, conhecida como Propriedade Horizontal (PH), onde diversas unidades de baixa altura compartilham um terreno comum, intercaladas por pátios e áreas de circulação. A intervenção moderniza a estrutura original, preservando elementos históricos enquanto introduz novos volumes metálicos.
Segundo reportagem do Dezeen, a estratégia central do projeto foi reorientar a planta da casa ao redor de dois pátios pavimentados com terracota. Ao demolir paredes e lajes que fragmentavam o interior, as arquitetas Victoria Cantoli e Analia D'have criaram um ambiente integrado de convivência, onde a estrutura de concreto aparente convive com acabamentos contemporâneos em madeira e aço, transformando o vazio em um elemento organizador do espaço.
A reinterpretação do espaço habitável
A abordagem do Estudio Futuro afasta-se da concepção tradicional de cômodos fechados. Para as fundadoras do escritório, o objetivo foi articular a residência como uma sequência de espaços definidos por terraços e pátios, permitindo que a luz natural, a ventilação e a vegetação se tornem componentes ativos do cotidiano. O uso da terracota não é apenas estético, mas funcional, servindo como uma extensão do solo que conecta o interior ao exterior de forma fluida.
A preservação da memória da construção original foi mantida através da exposição da estrutura de concreto e da reutilização criativa de elementos do cotidiano, como a incorporação de um antigo tanque de lavar roupas no banheiro do térreo. Esse diálogo entre o passado e o presente é o que confere à PH Gainza sua identidade, equilibrando o peso histórico do concreto com a leveza dos novos materiais escolhidos para a expansão.
Estrutura e leveza no novo pavimento
A expansão do primeiro andar é marcada por um contraste deliberado. Enquanto o térreo mantém a solidez do concreto, o novo nível superior foi construído com materiais mais leves, como painéis de metal corrugado branco, alumínio e vidro. Uma escada externa, também executada em aço branco curvo, conecta os dois níveis, reforçando a estética industrial que caracteriza a adição ao projeto original.
Este novo pavimento substituiu uma antiga lavanderia por dois quartos que se conectam diretamente a um pátio na cobertura. A posição deste volume, além de ampliar a área útil, atua como um elemento de sombreamento e privacidade para os espaços externos, respondendo à vizinhança adensada do terreno. O uso de bancadas em aço inoxidável e mobiliário em chapa metálica reforça a linguagem contemporânea adotada pelo escritório.
Implicações para a arquitetura urbana
O projeto da PH Gainza ilustra uma tendência crescente em metrópoles latino-americanas: a renovação de tipologias de baixa densidade em terrenos urbanos consolidados. Ao priorizar o espaço aberto em vez da expansão da área construída, o Estudio Futuro propõe um modelo de densificação que valoriza a qualidade de vida e a ventilação natural, um contraponto necessário ao crescimento vertical desenfreado observado em outras partes de Buenos Aires.
Para o mercado imobiliário e de arquitetura, a intervenção demonstra como a valorização de ativos existentes pode ser mais eficiente do que novas construções. A capacidade de adaptar estruturas antigas para as necessidades contemporâneas, mantendo a autenticidade dos materiais, torna-se um diferencial competitivo e cultural, especialmente em contextos onde a história da arquitetura local corre o risco de ser apagada por demolições sistemáticas.
Perspectivas e incertezas
Embora a reforma da PH Gainza seja um sucesso estético e funcional, resta observar como a manutenção desses materiais — especialmente as superfícies metálicas e os pátios abertos — se comportará ao longo do tempo sob o clima de Buenos Aires. A durabilidade do aço branco e a conservação da terracota em áreas externas exigirão um plano de manutenção contínuo para preservar o aspecto crisp da obra.
O sucesso desta tipologia como solução habitacional também levanta questões sobre a escalabilidade desse modelo. A renovação de uma PH exige sensibilidade para lidar com as dinâmicas de vizinhança e o compartilhamento de áreas comuns. O projeto do Estudio Futuro serve, contudo, como uma referência importante para futuros desenvolvimentos que buscam conciliar densidade, design e preservação histórica.
A transformação da PH Gainza reafirma o valor da arquitetura como ferramenta de mediação entre o histórico e o moderno. Ao tratar o vazio como protagonista, o projeto convida a uma reflexão sobre a forma como habitamos espaços compactos em ambientes urbanos densos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Dezeen





