No camarim do Barclays Center, no Brooklyn — o mesmo espaço que preparava Ariana Grande para o palco dias antes —, a energia é de uma concentração particular. Ali, não há estrelas pop, mas um grupo de atletas cuja idade varia dos 40 aos 89 anos. São os Timeless Torches, o time de dança “sênior” do New York Liberty, franquia histórica da WNBA, a liga de basquete feminino dos Estados Unidos.

Desde sua formação em 2005, eles se tornaram um pilar da experiência de um jogo do Liberty, não apenas pela curiosidade da idade, mas pela qualidade da dança. A leitura aqui é que o grupo representa uma poderosa tese sobre longevidade, relevância e a ressignificação do envelhecimento no espaço público. Como resume Catherine, de 67 anos e há 11 no time: “Quando você envelhece, sua vida inteira se torna ‘eu costumava ser’. O fato de que você pode começar a ‘ser’ algo quando é mais velho é fenomenal”.

A performance como resistência

O rigor é o mesmo de qualquer outra equipe de dança profissional do Brooklyn. Criscia Long, diretora sênior de entretenimento do ginásio, garante que os Timeless Torches são cobrados com o mesmo padrão. A reportagem da revista i-D, que acompanhou um dia de ensaios, relata uma dançarina de 74 anos sendo orientada a aprimorar um movimento de quadril no meio de uma coreografia. Não há condescendência.

Entrar para a equipe é um processo competitivo. David, de 60 anos, foi selecionado em um grupo de mais de 400 candidatos. Sua habilidade como um dos melhores imitadores de Michael Jackson do mundo, segundo Long, garantiu sua vaga. Outros, como Catherine, não tinham formação técnica em dança, mas compensaram com o que ela chama de “muita energia, muito entusiasmo, muita personalidade”. O que os une não é um passado uniforme, mas um presente de dedicação intensa a uma nova identidade, construída muito depois do que a sociedade costuma definir como o auge da vida.

Legado em movimento

O palco dos Timeless Torches não é neutro. Eles se apresentam no contexto de uma liga esportiva feminina profissional, composta majoritariamente por atletas negras e queer. A presença de um grupo intergeracional, com membros que viveram o movimento dos direitos civis e viram o nascimento do esporte feminino como ele é hoje, adiciona uma camada de profundidade histórica a cada performance.

Miss Betty, de 74 anos e no time desde sua criação, há 21 temporadas, cita como momento favorito uma colaboração com a Ailey Extension, celebrando a dança da África Ocidental em quadra durante o feriado de Juneteenth. Para ela, foi a chance de dançar com profissionais “em um dia sagrado e especial para mim e minha cultura”. Catherine, que nos anos 1960 aprendeu a jogar basquete usando vestido sobre bombachas e sem poder cruzar a quadra inteira, sente o peso da evolução. Ao participar da parada do título do Liberty em 2024, ela se surpreendeu com a multidão. “Pensei: ‘Será que alguém vai aparecer?’ Não é o Yankees, não é o Knicks. Quando chegamos e já havia pessoas, cinco fileiras de profundidade, eu pensei: ‘Meu Deus, isso é incrível’”.

Eles não buscaram ser uma inspiração; queriam apenas uma chance de dançar em celebração a um time no qual acreditavam. Começaram como fãs, e ao se tornarem parte do espetáculo, transformaram a si mesmos e a percepção do público sobre o que é possível fazer, não importa a idade. Seis meses depois da parada, Catherine recebeu seu anel de campeã. Aos 67 anos, ela não “costumava ser”. Ela é.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · i-D