A recente decisão do presidente Trump de isentar a Rússia de certas sanções, anunciada em um fim de tarde de sexta-feira, representa um passe livre para as forças do Kremlin, um ato que contraria legislação bipartidária e a vontade da maioria dos americanos. A medida é a mais recente em uma série de concessões a Moscou, em uma tentativa equivocada de forçar negociações. No entanto, o presidente russo, Vladimir Putin, tem recebido essas ofertas ingênuas sem ceder em sua recusa em dialogar seriamente. Pesquisas de opinião indicam que a maioria dos cidadãos americanos apoia a Ucrânia em sua defesa contra a agressão russa, considera Putin uma ameaça perigosa e deseja um maior auxílio dos Estados Unidos a Kiev.
A guerra na Ucrânia é, para muitos, um conflito de preto no branco: a Rússia, o invasor sem justificativa; a Ucrânia, o defensor de sua liberdade, soberania e integridade territorial. Contudo, a circulação de desinformação e narrativas falsas obscurece essa clareza. Para combater essas distorções, é fundamental contrastar Putin e a Rússia com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, e sua nação.
O Contraste entre Lideranças e Regimes
Putin ascendeu ao poder em agosto de 1999, nomeado primeiro-ministro e sucessor preferencial por Boris Yeltsin. No final daquele ano, Yeltsin renunciou, nomeando Putin presidente interino. Durante seu período como primeiro-ministro, Putin utilizou força bruta contra os chechenos em 1999. Em contrapartida, Zelensky tornou-se líder da Ucrânia em 2019, após vencer uma eleição com ampla margem, um pleito livre e justo, certificado por observadores nacionais e internacionais. Putin, por sua vez, não venceu uma eleição legítima em mais de duas décadas. É amplamente descrito como um ditador assassino, responsável pela morte de cidadãos russos e vizinhos, tratando suas tropas como meros peões. Zelensky, como líder democraticamente eleito, teve seu mandato estendido devido à impossibilidade de realizar eleições sob lei marcial, declarada após a invasão em larga escala da Rússia em 2022.
Sob o comando de Putin, as forças russas têm deliberadamente visado áreas civis, incluindo hospitais, edifícios residenciais e escolas, além de atacar infraestruturas de energia e água com o objetivo de subjugar a população. Zelensky e as forças ucranianas, por outro lado, concentram seus ataques em instalações energéticas russas que financiam a guerra, buscando minimizar baixas civis. A agressão de Putin contra a Ucrânia começou em 2014, com a anexação ilegal da Crimeia e a subsequente incursão na região de Donbas. Zelensky, que sequer estava na política naquele momento, não pode ser responsabilizado pelo início do conflito. Putin persiste em prolongar a guerra, recusando-se a negociar seriamente ou a considerar um cessar-fogo, enquanto Zelensky e a Ucrânia demonstraram repetidas vezes disposição para negociar, congelar o conflito e buscar soluções diplomáticas para o status das terras ocupadas, sem reconhecer o controle russo. Esforços de Trump para encerrar a guerra, como o recente anúncio de um cessar-fogo energético, foram ignorados por Putin, que continuou a atacar alvos ucranianos.
Mecanismos de Conflito e Alinhamentos Globais
Putin buscou derrubar o governo de Zelensky em 2022, com o objetivo de anexar vastos territórios ucranianos e submeter o país ao domínio russo. Zelensky e o povo ucraniano, em contraste, almejam viver em paz e exercer seu direito à autodeterminação. Putin demonstra um desejo claro de desafiar e minar nações democráticas e instituições como a OTAN e a União Europeia, enquanto a Ucrânia busca integrar-se a essas entidades. Em termos de alianças, Putin apoia o Irã, fornecendo inteligência e armas, enquanto Zelensky e a Ucrânia ofereceram aos EUA e seus aliados no Oriente Médio capacidades anti-drone e conhecimento para combater drones iranianos. Putin depende do apoio de países como Coreia do Norte e China, recebendo armamentos e tecnologia, além de vendas de energia. A Ucrânia, por sua vez, busca apoio ocidental. Essa dinâmica posiciona Putin e a Rússia como peças centrais do CRINK (China, Rússia, Irã, Coreia do Norte), um agrupamento de regimes autoritários que visam enfraquecer o Ocidente, com a Ucrânia atuando como um baluarte contra esse alinhamento perigoso.
Implicações para o Ocidente e o Futuro da Segurança Europeia
As provocações russas contra a Europa e os Estados Unidos são recorrentes, incluindo violações do espaço aéreo da OTAN, ataques cibernéticos, interferência eleitoral e até assassinatos em solo ocidental. A Ucrânia se encontra na linha de frente, defendendo não apenas sua própria liberdade, mas também a segurança do continente europeu. O regime de Putin é um dos mais corruptos do mundo, tendo destruído o estado de direito e a segurança jurídica, tornando a Rússia um ambiente inóspito para negócios. A Ucrânia, embora enfrente seus próprios desafios de corrupção, busca ativamente combatê-la e necessita urgentemente de investimento ocidental. A Rússia figura em uma posição muito inferior no índice de percepção de corrupção da Transparency International (157ª de 182), comparada à Ucrânia (104ª). A sociedade civil ucraniana é vibrante e atua como um contraponto à destruição da sociedade civil russa por Putin.
Perguntas em Aberto e a Necessidade de Ação Clara
Diante desse cenário, a pergunta que paira é: qual deve ser a postura dos Estados Unidos e da Europa? A resposta parece clara: um apoio inequívoco à Ucrânia contra a Rússia. A história julgará severamente o Ocidente se a política adotada for ambígua em um conflito tão claramente definido. É crucial fornecer a assistência militar necessária para que a Ucrânia se defenda, recupere territórios e vença a guerra. A Europa, em particular, deveria considerar a apreensão dos aproximadamente US$ 300 bilhões em ativos russos congelados em instituições financeiras ocidentais, como a Euroclear, na Bélgica. Esses fundos, que a Rússia não deveria recuperar, poderiam oferecer um auxílio financeiro substancial à Ucrânia e aliviar o fardo ocidental. A pressão sobre Putin e a Rússia, os iniciadores da guerra, deve ser intensificada, não sobre a Ucrânia. Isso inclui a implementação rigorosa de sanções, o combate à frota fantasma russa e o fim de brechas que permitem a entrada de componentes ocidentais em armamentos russos. Os EUA também deveriam aumentar os custos para países como China e Índia que importam energia russa. O Ocidente não deve firmar acordos energéticos ou de outra natureza com Putin, como a administração Trump sinalizou em 9 de outubro sobre diesel. Tais ações são interpretadas em Moscou como fraqueza, reforçando a percepção de Putin de que ele está vencendo e pode superar o apoio ocidental à Ucrânia. O Ocidente deve parar de convidar Putin para reuniões internacionais, como o G20. Indiciado pelo Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra, ele é responsável pela maior crise de segurança na Europa desde a Segunda Guerra Mundial e deve ser isolado, tratado como o pária e a ameaça que é, e não recebido com honras.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Atlantic — Ideas





