A corrida global pelo desenvolvimento de modelos de Inteligência Artificial (IA) está concentrada de forma avassaladora em dois países: os Estados Unidos e a China. Uma análise do Banco Mundial, apresentada no World Development Report 2026 e baseada em um dataset da Epoch AI de maio de 2026, revela que os EUA são responsáveis por 50% de todos os modelos de IA desenvolvidos, uma fatia mais que o dobro dos 24% da China. Juntos, os dois países respondem por 74% da produção global, deixando as demais economias em posições significativamente inferiores.
O domínio americano e a ascensão chinesa
Os Estados Unidos consolidam sua liderança com metade de todos os modelos de IA criados, um feito impulsionado por uma combinação robusta de capital de risco, gigantes da tecnologia, talento em pesquisa e infraestrutura computacional de ponta. Empresas como OpenAI, Google e Anthropic se beneficiam de um ecossistema de nuvem já estabelecido e acesso privilegiado a semicondutores avançados. O investimento federal em pesquisa e políticas de fomento à produção doméstica de chips também fortalecem esse ambiente competitivo. Essa liderança se estende não apenas ao desenvolvimento de modelos, mas também à operação de chatbots de IA amplamente utilizados globalmente.
A China, embora com 24% do total, demonstra uma trajetória de crescimento notável. A quantidade de modelos não é o único indicador de capacidade tecnológica, e desenvolvedores chineses como DeepSeek e Alibaba têm conseguido reduzir a distância de desempenho em relação aos sistemas americanos. Isso tem sido especialmente visível no desenvolvimento de modelos de menor custo e de código aberto (open-weight). No entanto, o acesso a chips avançados, capacidade computacional e capital ainda representam desafios cruciais para a China, apesar de sua influência significativa sobre minerais essenciais para a infraestrutura de IA.
Os desafios da Europa e as oportunidades de adaptação
A participação relativamente pequena da Europa no desenvolvimento de modelos de IA reflete desafios estruturais. Mercados de capitais fragmentados, menor volume de investidores em tecnologia de larga escala e acesso limitado a infraestrutura computacional são fatores que contribuem para essa defasagem. A incerteza regulatória, embora não seja a única causa, também pode complicar o cenário para investimentos. Essa situação pode levar a uma maior dependência de provedores americanos e chineses, limitando o controle europeu sobre a infraestrutura de IA e a inovação futura.
O Banco Mundial, contudo, ressalta que os benefícios econômicos substanciais podem ser capturados por países que se concentram na adaptação de sistemas de IA já existentes, em vez de investir pesadamente no desenvolvimento de modelos de fronteira, que são extremamente caros. Essa abordagem permite que economias com recursos mais limitados aproveitem o potencial da IA sem a necessidade de liderar a pesquisa fundamental, focando na aplicação e customização para suas necessidades específicas.
Outras economias e o futuro da distribuição da IA
Após os dois gigantes, o Reino Unido aparece em terceiro lugar com 5,2% dos modelos desenvolvidos, seguido pelo Canadá com 3,1%. Outras economias listadas individualmente, como Coreia do Sul (2,3%), Alemanha (2,2%), França (2,1%) e Japão (1,5%), representam parcelas menores, mas ainda relevantes do cenário global. Hong Kong, com 1,1%, e um grupo de "outros países" somando 7,1%, completam o quadro, evidenciando a concentração geográfica da inovação em IA.
A distribuição atual sugere um cenário onde a inovação de ponta em IA permanece concentrada em poucas mãos, com os EUA e a China ditando o ritmo. A questão que permanece é se outras nações conseguirão, através de estratégias de adaptação e nichos específicos, encontrar caminhos para se destacar e evitar uma dependência tecnológica excessiva. A capacidade de acessar e implementar tecnologias de IA de forma eficaz pode ser tão crucial quanto a capacidade de desenvolvê-las do zero.
O futuro da IA dependerá não apenas da capacidade de criar modelos mais poderosos, mas também de como esses modelos serão distribuídos, adaptados e integrados em diferentes economias. A análise do Banco Mundial serve como um alerta para a necessidade de políticas estratégicas que promovam a inovação e a competitividade em um cenário cada vez mais dominado por poucas potências tecnológicas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Visual Capitalist





