A administração Trump, conhecida por sua retórica cética em relação às mudanças climáticas, deu um passo significativo ao propor a revogação da conclusão da Agência de Proteção Ambiental (EPA) de que as emissões de gases de efeito estufa do setor de energia podem "razoavelmente ser antecipadas como perigosas para a saúde ou bem-estar público". A justificativa apresentada pela agência não contesta a realidade do aquecimento global, mas sim argumenta que grandes reduções nas emissões seriam insuficientes para evitar danos, levando à conclusão de que o país estaria melhor "fazendo nada". Essa postura foi descrita como "puro niilismo" e "completamente errada" por críticos, incluindo a fonte original da reportagem.

O setor de energia é o segundo maior emissor de gases de efeito estufa nos Estados Unidos, responsável por cerca de 24% das emissões totais do país. Em escala global, os EUA são o segundo maior emissor, respondendo por aproximadamente 12% do total mundial. Se o setor de energia americano fosse considerado um país, ele se posicionaria como o sexto maior emissor globalmente. A EPA, em sua argumentação, ecoa uma linha de raciocínio similar àquela apresentada em fevereiro sobre o setor de transportes, sugerindo que a eliminação ou redução substancial de cerca de metade das emissões de gases de efeito estufa dos EUA seria fútil. Tal lógica, se aplicada consistentemente, implicaria que nenhuma ação em qualquer setor ou país teria um impacto significativo no ritmo das mudanças climáticas, uma visão que ignora a natureza cumulativa e interconectada do problema.

O Argumento da "Fatia Fina"

A estratégia da EPA de descartar a importância das reduções de emissão, mesmo que substanciais, assemelha-se à analogia de considerar que "comer um pão inteiro é livre de calorias, desde que o pão seja cortado em fatias suficientemente finas". Essa abordagem minimiza o impacto coletivo de ações individuais, ignorando que algumas "fatias" – no caso, as emissões de setores como o de energia – são consideravelmente grandes e geram danos ambientais e de saúde pública significativos. A fonte, que serviu como administradora do Escritório de Informação e Assuntos Regulatórios da Casa Branca entre janeiro de 2023 e janeiro de 2025, tem conhecimento direto sobre o processo de revisão de regulamentações executivas, incluindo a análise de impacto de tais políticas.

Danos e Benefícios Ignorados

Em 2022, o setor de energia dos EUA emitiu mais de 1,5 bilhão de toneladas de dióxido de carbono, além de dezenas de milhares de toneladas de óxido nitroso e metano. A redução dessas emissões, e dos danos climáticos e de saúde associados, traria benefícios substanciais. As normas de poluição por carbono da administração Biden, que a atual administração Trump busca revogar, foram estimadas em US$ 20 bilhões anuais em benefícios econômicos globais, incluindo a mitigação das mudanças climáticas e a redução da poluição local que afeta a saúde humana. Vários bilhões desses danos econômicos evitados seriam de benefício direto para os americanos. Um relatório do Institute for Policy Integrity estimou que as emissões anuais do setor de energia dos EUA poderiam resultar em cerca de 5.300 mortes prematuras adicionais por ano no país, apenas por ondas de calor e incêndios florestais, sem contar os co-poluentes emitidos por usinas de energia.

A EPA, em sua proposta de revogação, ignora amplamente esses efeitos. Em vez disso, a agência apresenta uma estimativa que sugere um impacto mínimo na temperatura média global e no aumento do nível do mar, mesmo com a eliminação total das emissões do setor de energia dos EUA. Essa abordagem desconsidera a evidência científica de que a volatilidade extrema dos padrões climáticos, como as marés de tempestade, e não as médias de medições como a temperatura, impulsiona a maioria dos impactos negativos das mudanças climáticas. A agência argumenta que a incerteza em torno das estimativas de danos futuros invalida tais cálculos, uma tática que tem sido utilizada em outros processos regulatórios sob a administração Trump para justificar a inação.

Implicações e a Lógica da Inação

A decisão da EPA de não considerar os impactos negativos da revogação, como o aumento de mortes previstas, e de descartar estimativas de consequências futuras sob o pretexto de "incertezas" é particularmente problemática. Essa retórica de incerteza tem sido usada para justificar a interrupção da estimativa de danos locais de poluentes atmosféricos perigosos, como material particulado e ozônio, que por décadas foram avaliados com base em literatura científica revisada por pares. A agência agora assume que essa poluição não causa efeitos negativos à saúde devido à sua "incerteza".

Curiosamente, a proposta de revogação não contesta a gravidade das mudanças climáticas em si. O documento discute um estudo da National Academy of Sciences sobre a atribuição de eventos climáticos extremos ao aquecimento global, sem apresentar objeções. Isso sugere um reconhecimento implícito da seriedade do problema, mas uma recusa em agir, sob a alegação de que os EUA não podem fazer nada para mitigar as consequências. A fonte argumenta que essa postura é equivocada. Os benefícios das reduções de emissões dos EUA seriam ampliados se acompanhados por ações ambiciosas de outros países. Em vez de recuar em suas próprias restrições, os EUA poderiam usar sua influência global para incentivar outras nações a agir. A administração Trump, no entanto, optou pelo caminho oposto, retirando-se do Acordo de Paris e interrompendo a participação em negociações climáticas internacionais.

A política climática proposta pela administração Trump não é apenas cínica, mas também irracional e equivocada. Se esse niilismo se tornar a política nacional, as consequências negativas recairão sobre todos, tanto nos Estados Unidos quanto globalmente. A ênfase na incerteza como justificativa para a inação ignora décadas de ciência climática e os crescentes custos econômicos e de saúde associados à inação, minando a credibilidade regulatória e ambiental dos EUA no cenário mundial.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Atlantic — Ideas