A ideia de que os Estados Unidos possam fabricar o iPhone, o produto icônico da Apple, enfrenta uma barreira quase intransponível: a perda de décadas de expertise em manufatura de eletrônicos de consumo. Um engenheiro com vasta experiência em empresas como Polaroid e Apple, e que participou da vinda da primeira linha de produção da Apple para Taiwan em 1994, argumenta que a demanda por produção doméstica é irrealista.

Desinvestimento Histórico em Manufatura

Desde os anos 1970, quando a Polaroid começou a terceirizar sua produção para a Ásia, até os anos 1990, com a Apple chegando tardiamente a esse movimento, os EUA optaram por focar em pesquisa, desenvolvimento e design, negligenciando a manufatura de baixa margem. Durante a Guerra Fria, o investimento governamental americano foi direcionado para o setor aeroespacial e de defesa, não para a produção em massa de bens de consumo. Essa priorização criou uma base industrial focada em especificações militares, distante das necessidades de agilidade e escala exigidas pela indústria de eletrônicos de consumo.

A Busca por Eficiência e Velocidade

O autor relata experiências na Polaroid onde a produção interna era lenta e focada em pequenas otimizações de custo, em detrimento do tempo de lançamento no mercado. A terceirização para empresas japonesas, e posteriormente para Taiwan e China, ofereceu a velocidade, a expertise e a capacidade de produção em volume que faltavam nos EUA. Essas fábricas asiáticas já possuíam a infraestrutura de fornecedores, custos trabalhistas competitivos e mão de obra flexível, permitindo que os times de design colaborassem mais cedo e com maior eficiência. A velocidade e a previsibilidade oferecidas por esses parceiros estrangeiros permitiram que equipes menores de design entregassem produtos de forma mais eficaz.

O Legado da Cadeia de Suprimentos Global

A ascensão da China e de Taiwan como centros de manufatura global permitiu que empresas americanas dominassem a inovação tecnológica. Enquanto a China se tornou a "fábrica do mundo", os EUA consolidaram sua posição como "inovadores do mundo". A infraestrutura desenvolvida nesses países asiáticos, com uma vasta rede de fornecedores e um ecossistema de manufatura robusto, é algo que os Estados Unidos não cultivaram. Tentar recriar essa capacidade hoje seria um empreendimento monumental, possivelmente inviável, dada a mudança de prioridades e o desinvestimento de décadas na área.

Um Futuro Improvável para a Produção Doméstica

A conclusão é clara: a demanda para que os EUA fabriquem o iPhone é uma exigência impossível. A falta de uma atitude voltada para a manufatura de bens de consumo, a ausência de infraestrutura adequada e a carência de recursos em escala são obstáculos significativos. A "batalha" pela manufatura de eletrônicos de consumo foi perdida décadas atrás, e não há um caminho claro ou viável para recuperá-la no curto e médio prazo, dada a complexidade e a escala da cadeia de suprimentos global estabelecida.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company