A Europa se vê em uma encruzilhada estratégica: ou desenvolve suas próprias capacidades digitais ou aprofunda sua dependência de tecnologias estrangeiras, notadamente americanas e chinesas. Para Isabel Salazar, diretora-geral da Fundação Telefónica, o caminho para a soberania tecnológica do continente passa por uma combinação vital de "competitividade, inovação e confiança". A análise foi feita em entrevista à agência Europa Press, com repercussão na Forbes España.
O diagnóstico não é apenas econômico, mas geopolítico. A tecnologia, argumenta Salazar, tornou-se uma questão de segurança e autonomia estratégica. O desafio europeu é construir um ecossistema que não apenas inove de forma contínua, mas que consiga competir globalmente sem renunciar aos valores éticos e democráticos que definem o projeto do bloco. A questão é se a Europa consegue acelerar a tempo.
A terceira via tecnológica
O paradoxo europeu é bem conhecido: o continente possui centros de pesquisa de excelência, universidades de ponta e uma base industrial sólida, mas enfrenta uma dificuldade crônica em transformar esse conhecimento em "campeões tecnológicos" capazes de competir em escala global com os gigantes do Vale do Silício e de Shenzhen. O problema não é a falta de inovação, mas a dificuldade em escalar.
A percepção pública parece alinhada à urgência estratégica. Segundo um relatório da própria Fundação Telefónica, 86% dos espanhóis defendem que a Europa desenvolva suas próprias tecnologias para ser mais competitiva. Contudo, a consciência do problema ainda é superficial: apenas três em cada dez cidadãos conhecem o conceito de "soberania digital". Ainda assim, a preocupação com quem desenvolve a tecnologia, onde os dados são armazenados e sob quais regras as plataformas operam é crescente, especialmente em áreas como IA e proteção de dados.
Do laboratório ao mercado
Para Salazar, a solução exige mais do que investimento financeiro. É preciso uma coordenação público-privada mais azeitada, desenvolvimento de talento especializado e uma estratégia focada em áreas prioritárias. A inteligência artificial é citada como o campo mais urgente para reduzir a dependência, seguida por serviços em nuvem, data centers, cibersegurança, redes de telecomunicações e computação quântica.
A aposta é que existe uma demanda reprimida por alternativas locais. Uma pesquisa indica que 70% dos cidadãos europeus escolheriam uma plataforma local se ela oferecesse as mesmas funcionalidades que uma estrangeira. O dado sugere que, se a Europa conseguir criar produtos competitivos, haverá um mercado para eles. O desafio, portanto, é conectar as capacidades tecnológicas, o talento e o investimento em uma estratégia continental coesa, algo que a iniciativa ‘THINK&DO TECH’, da Fundação, busca fomentar.
O maior obstáculo, no entanto, continua sendo a capacidade de execução em um ambiente fragmentado. Enquanto EUA e China operam com ecossistemas tecnológicos integrados e de escala continental, a Europa ainda precisa provar que consegue transformar suas fortalezas dispersas em projetos capazes de gerar escala e competir globalmente. A corrida não é apenas por inovação, mas por velocidade e coesão.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España




