Enquanto o Vale do Silício opera sob o mantra de “mover-se rápido e quebrar coisas”, a Europa articula uma resposta mais ponderada à revolução da inteligência artificial. Em um congresso em Barcelona, o presidente da influente associação empresarial Foment del Treball, Josep Sánchez Llibre, defendeu a implementação da IA com “critério”, um termo que encapsula a busca do continente por um meio-termo entre inovação e cautela.

O apelo, reportado pela Forbes España, não é por um freio à tecnologia, mas por uma aceleração consciente. A preocupação é “garantir que a inovação gere confiança e não só velocidade”, afirmou Llibre. Essa visão é compartilhada tanto pelo poder público local quanto por Bruxelas, e reflete uma ansiedade sobre a concentração de poder tecnológico e a dependência de poucas plataformas.

O dilema europeu: Inovação com rédeas

O debate catalão espelha a estratégia da União Europeia. Daniel Calleja, representante da Comissão Europeia no evento, foi direto: “A Europa não tem que escolher entre inovação e confiança”, mas sim buscar ambas. Essa é a filosofia por trás do AI Act, o marco regulatório do bloco. O desafio, no entanto, está na execução. Na Espanha, por exemplo, há um abismo entre a adoção de IA por grandes corporações (57%) e por pequenas e médias empresas (apenas 19%).

Essa lacuna é o ponto cego da revolução digital. Sem políticas ativas para incluir as PMEs, a promessa de produtividade da IA corre o risco de aprofundar a concentração de mercado, em vez de democratizar o acesso à tecnologia. A regulação europeia, portanto, não é apenas sobre ética e segurança, mas também sobre competitividade e soberania econômica, tentando evitar um cenário onde as empresas europeias se tornem meras consumidoras de tecnologia americana ou chinesa.

A realidade em duas velocidades

A discussão no nível estratégico contrasta com a realidade no chão da fábrica — ou do escritório. Maria Mora, diretora do evento, apontou para um fenômeno de duas velocidades: a lenta implementação corporativa e a rápida adoção individual. Enquanto as diretorias debatem orçamentos e riscos, os funcionários “já usam a inteligência artificial”, com ou sem permissão.

Essa adoção orgânica e descentralizada cria uma tensão produtiva. Por um lado, força as empresas a se adaptarem. Por outro, gera riscos de segurança e conformidade. O posicionamento da prefeitura de Barcelona, de não ser “ludita” mas também não aceitar qualquer solução imposta, mostra que o poder público também está aprendendo a navegar essa complexidade, buscando aumentar seu orçamento de tecnologia para ter mais autonomia.

O recado de Barcelona é que a implementação da IA é menos uma corrida de velocidade e mais uma negociação complexa. Encontrar o “critério” ideal significa equilibrar o avanço tecnológico com a coesão social e a competitividade de todo o tecido empresarial, não apenas de seus gigantes.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España