Uma pesquisa com 1.500 empresas no Reino Unido, França e Alemanha acendeu um alerta sobre uma vulnerabilidade profunda no coração da economia digital europeia. Cerca de três em cada quatro entrevistados expressaram preocupação de que o governo dos EUA possa, abruptamente, cortar seu acesso a plataformas de tecnologia americanas das quais dependem para operar.

O levantamento, conduzido pela empresa suíça Proton e reportado pelo The Register, expõe um paradoxo crítico: o reconhecimento do risco não tem se traduzido em ação. Em um cenário de crescentes tensões geopolíticas, a dependência de serviços como os da Microsoft e Google se tornou um passivo estratégico, mas a maioria das companhias europeias parece paralisada, sem um plano de fuga concreto.

A Dependência Estrutural

A soberania digital europeia, um tema recorrente nos discursos de Bruxelas, parece distante da realidade do mercado. Um relatório da Synergy Research, citado na reportagem, aponta que o mercado europeu de infraestrutura de nuvem é dominado por operadores americanos, com empresas locais detendo apenas 15% de participação. A dependência vai além da nuvem, alcançando a camada de identidade e acesso (IAM), também controlada majoritariamente por fornecedores dos EUA.

As consequências de um eventual corte são financeiramente palpáveis. Mais da metade dos entrevistados (54,5%) afirma que suas operações não sobreviveriam por mais de um dia útil sem acesso a serviços digitais e de nuvem. Para grandes empresas, quase 29% estimam que um único dia offline custaria mais de €100.000, um número que evidencia como a teoria geopolítica se converte em risco de caixa.

O Paradoxo da Inação

Apesar do temor generalizado, a preparação é notavelmente baixa. Apenas 44% das empresas possuem um plano de continuidade de negócios documentado e testado regularmente. Isso significa que a maioria navega em águas incertas, contando com a estabilidade de uma relação transatlântica que já mostrou sinais de fragilidade.

A pesquisa, vale notar, foi patrocinada pela Proton, que oferece uma plataforma de continuidade de negócios. Ainda assim, seus achados ecoam um sentimento crescente no continente. Como resumiu o COO da Proton, Raphaël Auphan, o 'kill switch' deixou de ser uma abstração geopolítica para se tornar uma crise de continuidade de negócios iminente.

O debate, portanto, muda de patamar. O risco de um bloqueio tecnológico por parte de uma nação aliada começa a ser enquadrado na mesma categoria de ameaças que um ciberataque. A questão que fica para os conselhos de administração na Europa não é mais se a dependência é um problema, mas o que, de fato, farão a respeito.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Register