A promessa da inteligência artificial de revolucionar as operações empresariais ainda está longe de se concretizar em larga escala. Segundo executivos de gigantes como Accenture, AXA, Mastercard e Mistral AI, o número de organizações que verdadeiramente reinventaram seus processos centrais com IA é "próximo de zero". A constatação, feita durante um evento virtual da Fortune, sugere que os maiores obstáculos para a adoção bem-sucedida da IA não residem na tecnologia em si, mas sim na complexidade da mudança organizacional e na política interna das empresas.

Marc Warner, diretor global de tecnologia da Accenture, foi enfático ao afirmar que a maioria das empresas tem aplicado IA em tarefas periféricas, como marketing, transcrição de reuniões e codificação. Embora essas aplicações possam gerar retornos mensuráveis, a verdadeira transformação econômica de uma indústria, segundo ele, exige a reinvenção dos processos de negócio centrais – uma empreitada considerada de alto risco. Warner comparou a situação atual com os primórdios da eletricidade nas fábricas, quando a energia era usada apenas para iluminação, antes de se repensar a produção em torno de motores elétricos. A mensagem é clara: a IA, para gerar impacto profundo, precisa ser integrada ao núcleo, não apenas aplicada em suas bordas.

Greg Ulrich, da Mastercard, ecoou essa visão, destacando que os maiores retornos provêm da redesenho completo de fluxos de trabalho, e não da simples adição de IA a sistemas existentes. Ele exemplificou com o ciclo de desenvolvimento de produtos da Mastercard, que foi otimizado com equipes menores e ciclos mais rápidos. No entanto, Ulrich alertou para a armadilha de acelerar uma etapa de um processo longo, o que pode simplesmente criar gargalos em outras partes. "O agente de IA para automatizar uma parte disso não é o gargalo para a maioria disso", disse Ulrich. "É o repensar. É o remapeamento."

Matthieu Caillat, da AXA, apontou que, à medida que a tecnologia avança, o foco se desloca da própria tecnologia para a gestão da mudança e a aceitação por parte das pessoas. Esse aspecto humano e organizacional é frequentemente subestimado. Warner chegou a classificar as transformações impulsionadas por IA como "projetos políticos", uma percepção que ele adquiriu recentemente, contrastando com sua visão inicial de que eram puramente projetos tecnológicos. A dificuldade em gerenciar as dinâmicas internas, as resistências e as expectativas dos colaboradores parece ser um fator mais crítico do que a capacidade da própria IA.

Quando questionado sobre a responsabilidade em caso de falhas de sistemas de IA, Warner admitiu que não há uma resposta simples. Geralmente, a responsabilidade recai sobre o proprietário do negócio pelo valor gerado, o tecnólogo pela funcionalidade e o executivo de segurança da informação pela segurança. Contudo, ele aconselhou que as empresas, em geral, não se preocupem excessivamente com a "guerra de culpas" neste momento, incentivando a experimentação e reconhecendo que o fracasso faz parte do processo de inovação. Marjorie Janiewicz, da Mistral AI, concordou, sugerindo que a questão mais pertinente é o controle que uma empresa tem sobre a tecnologia que adota e sua capacidade de definir suas próprias salvaguardas, especialmente ao utilizar modelos abertos que podem ser executados em infraestrutura própria.

Os executivos também ressaltaram a velocidade vertiginosa com que os planos de IA se tornam obsoletos. Ferramentas desenvolvidas há um ano pela Mastercard já são consideradas "antiquadas". A AXA, que iniciou com centenas de casos de uso de IA para gerar entusiasmo, agora foca em objetivos mais concretos, visando €500 milhões a €700 milhões anuais em valor antes de impostos até 2029, aproveitando seus 4 bilhões de documentos não estruturados. A Accenture estima que essa aceleração continue até 2030, com possíveis restrições de energia emergindo na década seguinte. A mensagem final é que a jornada da IA nas grandes corporações é menos uma corrida tecnológica e mais um desafio de transformação cultural e estrutural, onde a política interna e a gestão de pessoas são os verdadeiros árbitros do sucesso.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune