A Expedia Group está promovendo uma profunda reorganização em suas divisões de produto e tecnologia, um movimento que resultou na saída de pelo menos oito executivos de alto escalão, incluindo vice-presidentes e VPs seniores. A mudança foi comunicada em um memorando interno obtido pelo site americano GeekWire.
No documento, os chefes de produto e tecnologia da companhia, Shilpa Ranganathan e Ramana Thumu, afirmam que “a IA mudou radicalmente o que é possível” e que “trabalho que antes levava semanas acontece cada vez mais em horas”. A tese do artigo: esta não é uma reestruturação trivial ou um mero corte de custos. É uma resposta estratégica e defensiva a uma ameaça existencial que a inteligência artificial generativa impõe a todo o setor de agências de viagens online (OTAs).
A arquitetura da sobrevivência
A reconfiguração da Expedia é um reflexo direto da nova realidade imposta pela IA. A empresa está se desfazendo de estruturas monolíticas em favor de “pequenos esquadrões de ponta a ponta com propriedade clara”, com a missão de tornar a IA e o machine learning “parte de cada missão”. A mudança mais emblemática é o desmembramento do portfólio de Sachin Singh, um SVP vindo da Amazon que liderava áreas críticas como checkout, pagamentos, prevenção a fraudes e autoatendimento. Essas áreas agora serão distribuídas entre diferentes líderes, quebrando silos e buscando mais agilidade.
Ao mesmo tempo, a companhia está consolidando seu poder de fogo em IA. Todas as frentes de dados, IA e plataformas “agentic” — sistemas autônomos que podem executar tarefas complexas — ficarão sob o comando de Xavier Amatriain, um ex-executivo de IA do Google nomeado como o primeiro Chief AI and Data Officer da Expedia em dezembro. A leitura é clara: a Expedia está tentando redesenhar sua máquina organizacional para que a velocidade de desenvolvimento interno consiga, no mínimo, acompanhar o ritmo da inovação externa.
O fantasma da desintermediação
A urgência da Expedia tem nome: desintermediação. A CEO Ariane Gorin descreveu a IA como a terceira grande disrupção na história da empresa, depois da internet e do mobile. O risco é que agentes de IA, como o ChatGPT ou assistentes futuros, se tornem a nova interface para o planejamento e a reserva de viagens, relegando plataformas como a Expedia e a Booking.com a meras fontes de inventário nos bastidores — exatamente o que elas fizeram com as agências de viagem tradicionais décadas atrás. O CEO da Marriott já declarou publicamente que os agentes de IA devem prejudicar mais as OTAs do que os próprios hotéis.
Ciente do perigo, a Expedia tem se posicionado de forma pragmática. Foi uma das parceiras de lançamento quando a OpenAI abriu o ChatGPT para aplicativos de terceiros e passou a comprar anúncios dentro da plataforma este ano. A estratégia parece ser dupla: fortalecer a própria tecnologia com IA e, ao mesmo tempo, garantir presença nas novas plataformas que ameaçam seu negócio principal. A reorganização interna, portanto, não é apenas sobre eficiência, mas sobre a capacidade de lutar em duas frentes simultaneamente, numa corrida para não se tornar um legado da era pré-IA.
A reestruturação é um passo fundamental para adaptar a operação a um cenário onde a velocidade e a autonomia dos times são cruciais. O memorando interno fala em “menos tempo coordenando e esperando, e mais tempo trabalhando juntos”. Para a Expedia, o desafio é transformar essa intenção em realidade antes que a próxima onda de disrupção torne seu modelo de negócio obsoleto. A aposta foi feita; resta saber se o tempo está a seu favor.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · GeekWire





