A inteligência artificial (IA) se consolidou como uma das tecnologias mais promissoras e comentadas da atualidade, impulsionando um frenesi de investimentos e adoção em empresas de todos os portes. No entanto, um olhar mais atento sobre os resultados financeiros revela um cenário menos eufórico. Segundo Dan Diaso, executivo da consultoria EY, a vasta maioria das organizações ainda não consegue mensurar retornos substanciais em receita ou redução de custos provenientes de suas iniciativas em IA.
Em conversa durante o AI Agenda Live Summit, promovido pelo veículo The Information, Diaso foi categórico: “Não conheci nenhum cliente que diga que quer diminuir seus gastos com IA. Mas já vi um monte de clientes dizerem: ‘Eu não sei onde está o meu ROI [retorno sobre o investimento] hoje’”. Essa declaração ecoa uma preocupação que paira no ambiente corporativo há pelo menos um ou dois anos, e que explica, em parte, as táticas agressivas de marketing e precificação de empresas de software e IA, que oferecem descontos e testes gratuitos para convencer os negócios a adotarem suas ferramentas.
O Custo da Entusiasmo
A precificação baseada no uso, modalidade que se popularizou com provedores como a Anthropic e que se tornou mais comum no último ano, tem sido um fator crucial para que as empresas comecem a questionar o retorno de seus investimentos. Essa abordagem, ao se traduzir em contas mais altas, tem levado as organizações a utilizarem as ferramentas de IA com mais cautela e a considerarem alternativas de código aberto, como já noticiado. Mesmo assim, Diaso ressalta que os gastos atuais com IA são, em grande parte, "baseados em entusiasmo em vez de evidências". Ele estima que apenas um em cada dez clientes da EY consegue "realmente mostrar onde o ROI está acontecendo" em suas demonstrações financeiras.
Produtividade vs. Lucratividade
Embora o consenso seja de que a IA está aumentando significativamente a produtividade organizacional, a perspectiva do CFO (Chief Financial Officer) é mais pragmática. Diaso aponta que "todo mundo, sem dúvida, diria que a IA está aumentando significativamente a produtividade [da organização]". Contudo, para um diretor financeiro, "produtividade precisa se traduzir em uma de duas coisas: estamos gerando mais receita? Ou estamos tirando custos da organização?". A dificuldade em conectar o aumento de produtividade com esses dois indicadores financeiros cruciais é o cerne da questão. A IA pode otimizar processos internos, acelerar tarefas e permitir novas formas de trabalho, mas se esses ganhos não se materializam em maior lucratividade ou em eficiência de custos, o investimento se torna insustentável a longo prazo.
O Desafio da Mensuração
A falta de um ROI claro e mensurável para a IA não é um problema exclusivo de um setor ou de um tipo de empresa. Ela afeta desde startups inovadoras até conglomerados tradicionais. A complexidade reside em diversos fatores: a dificuldade em isolar o impacto da IA de outras variáveis de negócio, a necessidade de reestruturar processos e fluxos de trabalho para aproveitar ao máximo a tecnologia, e a própria evolução rápida da IA, que torna obsoletas as métricas de retorno estabelecidas em um curto espaço de tempo. Empresas que investem em IA sem uma estratégia clara de mensuração de resultados correm o risco de desperdiçar recursos valiosos em iniciativas que, embora tecnologicamente avançadas, não agregam valor financeiro tangível.
O Futuro da Adoção de IA
Diante desse cenário, o que se pode esperar é uma maior pressão por parte dos executivos financeiros para que as empresas demonstrem o valor real da IA. Isso pode levar a uma reavaliação das estratégias de implementação, com foco em casos de uso que ofereçam um caminho mais direto para o aumento de receita ou a redução de custos. A adoção de IA, embora ainda impulsionada pelo entusiasmo, precisará, em algum momento, ser justificada por resultados concretos. A tendência é que as empresas se tornem mais seletivas em seus investimentos, priorizando soluções que apresentem um ROI comprovado e alinhado aos objetivos estratégicos do negócio. O período de "gastos por entusiasmo" pode estar chegando ao fim, abrindo espaço para uma fase mais madura e orientada a resultados na adoção da inteligência artificial.
A observação de Diaso, da EY, serve como um chamado à ação para que as empresas aprofundem suas análises e busquem métricas mais robustas para avaliar o impacto de suas implementações de IA, garantindo que o investimento em tecnologia se traduza em crescimento e sustentabilidade financeira.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Information





