Fabrizio Plessi, um dos nomes seminais da videoarte, faleceu aos 86 anos em Veneza, cidade que foi tanto sua casa quanto a gramática de seu trabalho. A morte, ocorrida em 23 de agosto, foi reportada inicialmente pelo jornal italiano La Repubblica.
Plessi ficou conhecido por um feito raro: colocar a história e a tradição em diálogo direto com o digital, criando instalações que eram, em si, arquitetura. Sua tese não era sobre a novidade da tecnologia, mas sobre sua capacidade de ser humanizada — um meio tão nobre quanto a pedra ou a água para explorar temas perenes como tempo, memória e movimento.
A tecnologia como matéria-prima
Para Plessi, a dicotomia entre o analógico e o digital era falsa. “Todos pensam no digital como algo conectado à tecnologia material, quando é o elemento mais imaterial que existe”, disse ele certa vez ao La Repubblica. Em sua visão, a pintura e a escultura eram materiais; a luz de um LED, imaterial e, portanto, espiritual. Ele não via diferença fundamental entre os vitrais de uma catedral gótica — que chamava de “grandes pixels de luz” — e as telas de televisão com as quais trabalhou desde os anos 70.
Essa filosofia se manifestava em sua obra. A água, por exemplo, foi um tema de pesquisa desde os anos 60, muito antes de suas primeiras videoinstalações. Quando adotou os monitores, a água não desapareceu; ela passou a fluir dentro deles, como na instalação Bronx (1986), onde imagens de água corrente eram refletidas em pás, uma metáfora sobre a paisagem industrial em transformação. Para ele, a tecnologia não existia por si só, mas “apenas como a usamos, como a humanizamos”.
De Veneza para o mundo
Nascido em Reggio Emilia, Plessi teve em Veneza e em sua Bienal um palco constante. Foi lá que representou a Itália em 1986, e sua relação com o evento atravessou mais de cinco décadas. A participação na Documenta 8 em Kassel, na Alemanha, no ano seguinte, consolidou sua aclamação internacional. Suas obras foram exibidas em instituições como o Centre Pompidou, em Paris, e o Solomon R. Guggenheim, em Nova York.
Mesmo no fim da vida, Plessi não parou de experimentar. Recentemente, colaborou com mestres vidreiros de Murano para criar uma série de objetos em vidro, seu último meio de exploração. Era a prova final de seu argumento: o artista não se define pela ferramenta, mas pela visão. Seja em um monitor de 80 quilos ou em um delicado copo de cristal, sua busca era pela luz, pela ideia e pelo que ele considerava a essência espiritual da arte.
Como disse o prefeito de Veneza, Simone Venturini, Plessi “soube olhar para Veneza sem nostalgia”. Seu legado não está nas máquinas que usou, mas na ponte que construiu entre a força ancestral dos elementos e a dimensão etérea da tecnologia, provando que a arte contemporânea pode, ao mesmo tempo, ser profundamente clássica.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





