O Ministério da Fazenda enviou um recado direto ao mercado e, nas entrelinhas, ao Banco Central. Em entrevista à Globonews, o secretário-executivo da pasta, Dario Durigan, afirmou que o principal vetor de crescimento da dívida pública desde o início do ano não é o resultado fiscal do governo, mas sim o patamar da taxa de juros.
A declaração busca reenquadrar um debate que tem pressionado o governo. A narrativa dominante no mercado financeiro costuma focar na desconfiança sobre a trajetória dos gastos públicos como o principal risco para a sustentabilidade da dívida. Ao apontar para os juros, Durigan desloca a responsabilidade, sugerindo que a política monetária restritiva do BC tem um custo fiscal que supera os esforços da equipe econômica.
O Peso da Selic
O argumento de Durigan, segundo ele próprio, baseia-se em dados do próprio Banco Central. A tese é que, mesmo com o compromisso de "melhora fiscal e aprimoramento das contas públicas", o custo de rolagem de uma dívida trilionária sob uma taxa Selic elevada anula os avanços no resultado primário. Para reforçar a percepção de credibilidade do governo, o secretário citou a melhora na nota de crédito do Brasil pelas três principais agências de rating globais durante a gestão atual.
A leitura aqui não é que a Fazenda esteja abandonando a agenda fiscal. Pelo contrário, a fala de Durigan é uma tentativa de defender os resultados de sua política, argumentando que seus efeitos são ofuscados pelo aperto monetário. Trata-se da expressão pública de um dilema clássico da economia brasileira: a difícil coordenação entre uma política fiscal que busca espaço para investimentos e uma política monetária focada no controle da inflação, muitas vezes por meio de juros altos que penalizam as contas do próprio governo.
A Trajetória e a Credibilidade
Ao afirmar que não há risco de o Tesouro não honrar seus compromissos, Durigan tenta acalmar os ânimos e ancorar as expectativas. A preocupação com o tamanho da dívida é real e admitida, mas a estratégia de comunicação parece ser a de condicionar sua estabilização a uma queda nos juros, que por sua vez dependeria do esforço fiscal. É um reconhecimento implícito da interdependência, mas com uma clara sinalização sobre quem deveria ceder primeiro.
O movimento ocorre em um momento delicado, em que o mercado debate a capacidade do governo de cumprir suas metas fiscais e o Banco Central enfrenta pressões para acelerar o ciclo de cortes da Selic. A fala do secretário-executivo funciona, portanto, como uma peça no tabuleiro de negociações entre o poder Executivo e a autoridade monetária.
A mensagem final é que a estabilização da dívida não é uma equação de uma única variável. Ela depende de uma sincronia fina entre as decisões tomadas na Esplanada dos Ministérios e no edifício-sede do Banco Central. A questão que permanece no ar é se essa sintonia será encontrada a tempo de evitar que o custo da dívida sufoque a economia.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





