A Fervo Energy, startup de energia geotérmica com sede em Houston, consolidou o maior IPO de energia limpa da história de Wall Street, alcançando um valor de mercado superior a US$ 10 bilhões. A empresa, que conta com o apoio de investidores como Bill Gates, viu suas ações subirem 35% logo no primeiro dia de negociações, em 13 de maio, após captar US$ 1,89 bilhão em uma oferta pública que superou as expectativas iniciais de preço.

O sucesso da abertura de capital reflete a urgência do setor de tecnologia por fontes de energia confiáveis e sustentáveis. Segundo reportagem da Fortune, a Fervo utiliza uma abordagem de sistemas geotérmicos aprimorados (EGS), que adapta tecnologias de perfuração horizontal e fraturamento hidráulico — originalmente desenvolvidas para a indústria de óleo e gás — para extrair calor do subsolo em locais onde fontes geotérmicas tradicionais seriam inviáveis.

A evolução da tecnologia geotérmica

A tecnologia de EGS representa uma ruptura significativa com os métodos geotérmicos que dependem exclusivamente de reservatórios naturais de calor. Ao perfurar poços a aproximadamente 3 quilômetros de profundidade e injetar água em um circuito fechado, a Fervo consegue gerar vapor constante para alimentar turbinas elétricas, independentemente das condições climáticas. Esse modelo oferece uma vantagem competitiva clara sobre a energia solar e eólica, que sofrem com a intermitência e exigem armazenamento em baterias de alto custo.

A transição da teoria para a prática tem sido acelerada pela demanda dos chamados "hyperscalers" — grandes empresas de tecnologia que buscam energia 24 horas por dia para sustentar seus data centers de inteligência artificial. O projeto Cape Station, em Utah, é a vitrine desse esforço comercial, com capacidade planejada de 500 megawatts, o suficiente para abastecer cerca de 400 mil residências, com entrega de energia prevista para começar ainda este ano.

O papel dos incentivos e da escala

O crescimento da Fervo ocorre em um cenário político e econômico complexo. Embora o setor de energia renovável enfrente incertezas regulatórias, a energia geotérmica tem mantido um suporte bipartidário, garantido por créditos fiscais que se estendem até 2033. Essa estabilidade é fundamental para atrair o capital necessário para reduzir os custos operacionais da empresa, que atualmente busca diminuir o investimento por quilowatt de US$ 7.000 para US$ 3.000.

A estratégia de escala da Fervo envolve a exploração de cerca de 600 mil acres no oeste dos Estados Unidos, com um potencial de geração de 40 gigawatts. Esse volume representa uma escala inédita para o setor, que historicamente desenvolveu apenas 4 gigawatts em toda a sua trajetória no país. A entrada de gigantes como SLB e Baker Hughes no setor de EGS confirma o interesse das empresas de serviços de petróleo em diversificar seus portfólios para além dos combustíveis fósseis.

Implicações para o mercado global

A corrida por energia limpa e ininterrupta coloca a Fervo em uma posição estratégica. Enquanto a energia nuclear enfrenta desafios de longo prazo com combustível e resíduos, e a fusão nuclear permanece em estágio experimental, a geotérmica aprimorada surge como uma alternativa madura e escalável. Para o Brasil, onde a matriz energética já possui uma base renovável sólida, a lição reside na capacidade de adaptar tecnologias de perfuração de óleo e gás para novos fins, aproveitando expertises técnicas já existentes no setor de energia.

A pressão sobre os custos permanece como o maior obstáculo para a adoção em larga escala. A meta de atingir a paridade de preços com as fontes mais baratas de gás natural é o divisor de águas que definirá se a geotérmica se tornará a espinha dorsal da nova infraestrutura digital ou se permanecerá como uma solução de nicho para clientes dispostos a pagar um prêmio pela sustentabilidade.

O futuro da matriz energética

As questões sobre a viabilidade de longo prazo e a expansão geográfica além do oeste americano permanecem em aberto. A Fervo terá que provar que sua tecnologia pode ser replicada com a mesma eficiência em diferentes formações geológicas, mantendo a segurança operacional e a ausência de sismicidade induzida, um problema comum em outras operações de subsolo.

O mercado observará atentamente os próximos 24 meses, período em que o projeto Cape Station atingirá sua capacidade total. A capacidade da empresa de manter a disciplina financeira enquanto escala suas operações será o verdadeiro teste de fogo para um modelo de negócio que promete transformar a energia geotérmica na base invisível da inteligência artificial.

Com reportagem de Fortune

Source · Fortune