A indústria de eventos ao vivo enfrenta um questionamento crescente sobre a eficácia de suas políticas de sustentabilidade, especificamente quanto ao uso de copos reutilizáveis. Mais de 130 organizações sociais, lideradas pela Alianza Residuos Cero e pela plataforma #LeydeResiduosYA, formalizaram uma queixa junto ao Ministério para a Transición Ecológica (Miteco) sobre o que classificam como uma falha sistêmica na implementação de alternativas a plásticos de uso único.

Segundo reportagem do Xataka, o cerne da denúncia reside na ausência de sistemas de logística reversa que garantam a efetiva reutilização dos recipientes. Embora a legislação vigente — como o Real Decreto 1055/2022 — determine que promotores de eventos culturais e esportivos devem implementar alternativas aos descartáveis, a prática tem se distanciado do espírito da lei, convertendo o copo em um item de merchandising cobrado separadamente do consumidor.

O mito da sustentabilidade no plástico espesso

A definição técnica de um item reutilizável exige um ciclo fechado de coleta, higienização e recolocação em circulação. Especialistas apontam que a simples espessura do plástico ou a impressão de mensagens ecológicas não conferem ao objeto o status de sustentável. Sem uma infraestrutura de retorno, o copo acaba invariavelmente no lixo ou como uma lembrança inútil, equiparando-se a um descartável comum.

Este cenário cria um vácuo legal onde o conceito de economia circular é esvaziado de seu propósito prático. A crítica das entidades é contundente: a falta de desenvolvimento operacional e de fiscalização permite que organizadores contornem as exigências ambientais, utilizando a fachada da sustentabilidade apenas para justificar taxas extras cobradas do público.

Mecanismos de cobrança e a ausência de retorno

O modelo de negócio atual frequentemente impõe ao espectador a compra obrigatória do copo oficial, sem oferecer a contrapartida da devolução ou do reembolso. Em casos documentados, como o relatado pela organização de consumidores Facua em Sevilha, promotores chegaram a ser alvo de processos por não permitirem a devolução do item, forçando o consumidor a adquirir um novo recipiente a cada rodada de bebidas.

Essa dinâmica revela um incentivo econômico perverso. Ao cobrar pelo copo sem facilitar a coleta, o organizador transforma um custo de operação em uma nova fonte de receita. A ausência de postos de devolução visíveis e o descaso com a rastreabilidade dos envases evidenciam que, para muitos grandes eventos, a prioridade permanece na otimização de margens em detrimento da redução do impacto ambiental.

Implicações para o setor e o consumidor

A tensão entre reguladores e promotores de eventos coloca em xeque a credibilidade dos selos de sustentabilidade adotados pela indústria. O consumidor, por sua vez, encontra-se em uma posição de desvantagem, pagando por um serviço que promete responsabilidade ambiental, mas que entrega, na prática, um volume maior de resíduos plásticos.

Para o ecossistema de eventos, a pressão por transparência sugere uma mudança obrigatória na gestão. A exigência de que promotores reportem indicadores claros de uso e recuperação de envases pode ser o próximo passo para uma regulação mais rígida, impactando diretamente o planejamento financeiro e operacional de grandes festivais e shows.

Perspectivas diante da nova legislação europeia

A adaptação ao novo Regulamento Europeu 2025/40 sobre envases surge como uma oportunidade para sanar essas anomalias. O desafio reside em definir critérios operacionais rigorosos que obriguem os organizadores a justificar seus ciclos de vida dos produtos, indo além da mera conformidade teórica com a lei.

O que permanece incerto é se a fiscalização será capaz de acompanhar a escala dos eventos. A eficácia das próximas medidas dependerá da capacidade do Estado em transformar diretrizes em exigências operacionais inegociáveis, sob pena de manter o status quo de um marketing verde que pouco contribui para a gestão de resíduos reais.

O debate sobre a responsabilidade dos grandes eventos está apenas começando. A transição para modelos verdadeiramente circulares exigirá uma mudança de paradigma que vai além da substituição de materiais, tocando no âmago da logística e da transparência corporativa. A questão que fica para os organizadores é quanto tempo o público tolerará pagar por uma sustentabilidade que não se concretiza no dia a dia dos festivais.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka