A carreira acadêmica em filosofia, especialmente na vertente analítica, tem o domínio do inglês como um requisito quase inegociável. No entanto, para os muitos pesquisadores cujo idioma nativo não é o inglês, essa exigência impõe barreiras que vão desde os primeiros anos de estudo até o avanço na carreira. Embora desigualdades de gênero e raça sejam amplamente reconhecidas e pesquisadas na profissão, as desvantagens linguísticas têm recebido atenção mais recente.
Um novo estudo, considerado o mais sistemático e abrangente sobre a inequidade linguística na filosofia acadêmica até o momento, lança luz sobre essa questão. Realizado por Neri Marsili, da Universidade de Turim, e Paul Rehren, do Instituto Max Planck, a pesquisa analisou mais de 100.000 artigos publicados em mais de 200 revistas de filosofia entre 1975 e 2021. Os resultados indicam uma representação desproporcionalmente menor de autores não nativos de inglês nas publicações mais influentes.
O Cenário da Sub-representação
O estudo utilizou proxies para identificar autores não nativos de inglês: se o pesquisador trabalha em um país de língua inglesa ou se obteve seu doutorado em tal país. Embora esses métodos não sejam perfeitos, uma verificação manual de uma amostra aleatória mostrou que eles acertam cerca de nove em cada dez vezes. Para estabelecer uma linha de base, os pesquisadores estimaram a proporção de filósofos não nativos na profissão em pouco mais de 50%, com base em dados do PhilPeople. Contudo, os autores alertam que essa estimativa pode ser conservadora, pois o PhilPeople tende a ter maior cobertura em países anglófonos.
Ao analisar a totalidade das publicações, os autores não nativos se aproximam da paridade em um dos proxies (onde trabalham, cerca de 90% do esperado), mas ficam aquém no outro (onde obtiveram o doutorado, pouco mais de 50%). No entanto, a análise se torna mais crítica quando o foco se volta para as revistas de maior prestígio. Definidas como as trinta melhores revistas segundo o ranking Leiter Reports, ou o grupo restrito das “Big Four” (Philosophical Review, Mind, Noûs e Journal of Philosophy), a sub-representação se acentua drasticamente. Nesses periódicos de elite, autores não nativos publicam entre metade e um quarto do que seria esperado com base em sua proporção na profissão, e entre 12% e 38% do esperado nas “Big Four”.
Mecanismos e Explicações para o Desequilíbrio
O estudo investigou três hipóteses para explicar essa disparidade. A primeira, que autores não nativos simplesmente escrevem um inglês menos polido, foi parcialmente refutada. Embora haja uma leve tendência de maior dificuldade para falantes de línguas mais distantes do inglês, essa não parece ser a principal causa. A segunda hipótese, que autores não nativos enfrentam discriminação ativa por parte dos revisores, ganhou força com a análise da transição para revisões cegas (duplas ou triplas anônimas). Nesses casos, a representação de não nativos aumentou significativamente, sugerindo que o anonimato ajuda a mitigar vieses, possivelmente ligados a preconceito de prestígio ou à origem institucional do autor.
A terceira hipótese sugere que os próprios interesses temáticos dos não nativos podem divergir do que as revistas de ponta priorizam, como metafísica e epistemologia, em detrimento de tradições filosóficas continentais ou não ocidentais. A concentração de trabalhos de não nativos nessas áreas menos publicadas nas revistas de elite contribui para a lacuna. Contudo, os autores ressaltam que a seleção de temas é uma escolha editorial, e que os conselhos editoriais, frequentemente compostos por acadêmicos de instituições anglófonas, podem perpetuar vieses ao priorizar certos campos de pesquisa.
Implicações e Caminhos Futuros
Apesar das limitações, como a falta de dados de submissão que poderiam esclarecer se menos não nativos submetem artigos às revistas de ponta, o estudo confirma um quadro preocupante: a sub-representação de não nativos nas publicações mais importantes da filosofia está se ampliando. Para mitigar essa situação, os autores sugerem aumentar o anonimato nas revisões de artigos em revistas que ainda não adotaram sistemas triplamente cegos. A inclusão de mais editores de fora do mundo anglófono nos conselhos editoriais também poderia diversificar as escolhas temáticas e estilísticas. A adoção dos Princípios de Barcelona para uma Filosofia Globalmente Inclusiva, que incentivam a coleta de estatísticas sobre submissões de não nativos, poderia fornecer dados cruciais para estudos futuros e ajudar a resolver as questões ainda em aberto.
A melhoria da equidade linguística na filosofia acadêmica exige um esforço contínuo e multifacetado. A transição para revisões mais anônimas e a diversificação dos corpos editoriais são passos importantes para garantir que o mérito acadêmico, e não o idioma nativo, seja o principal critério para a publicação em revistas de prestígio, promovendo um campo mais inclusivo e representativo da comunidade filosófica global.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Daily Nous





