A possível transição da escala 6×1 para uma jornada semanal de 40 horas na construção civil brasileira gera preocupação entre as incorporadoras. Segundo Luiz França, presidente da ABRAINC, a mudança legislativa, atualmente em tramitação no Congresso, trará impactos diretos e imediatos nos custos de execução e nos cronogramas de entrega das obras.

Dados apresentados pela entidade, baseados em um estudo da consultoria CTE, indicam que a redução da jornada elevará o preço final dos imóveis em cerca de 5%. A estimativa é que esse encarecimento retire aproximadamente 2,5 milhões de pessoas do mercado de crédito imobiliário, restringindo o acesso à moradia própria em um cenário de custos já pressionados.

Impacto nos cronogramas e produtividade

A redução de quatro horas semanais de trabalho representa uma queda de 10% na disponibilidade de mão de obra direta nos canteiros. O estudo do CTE projeta que, para cada dez meses de obra, seria necessário adicionar cerca de um mês ao cronograma original para compensar a ausência de atividades aos sábados. Esse prolongamento não é apenas uma questão de tempo, mas de eficiência operacional.

Sistemas construtivos específicos, como o uso de paredes de concreto, podem sofrer quedas de produtividade de até 25%. A interrupção dos ciclos produtivos aos finais de semana desestabiliza a cadência das concretagens e a logística de insumos, forçando as construtoras a redesenhar todo o planejamento executivo para evitar atrasos ainda maiores na entrega das unidades.

Pressão sobre os custos indiretos

O prolongamento das obras eleva automaticamente os custos indiretos, como a manutenção de canteiros, seguros e aluguel de equipamentos. De acordo com os cálculos da consultoria, apenas o aumento do prazo elevaria os custos entre 1% e 2% do orçamento total do projeto. Caso as empresas optem por manter os prazos originais via pagamento de horas extras, o custo total pode saltar até 10,8%.

Essa dinâmica cria um dilema para o setor: absorver a margem, repassar o custo ao consumidor final ou tentar manter a produtividade com custos de mão de obra mais elevados. A escolha dependerá da capacidade de cada incorporadora em otimizar processos internos e negociar novas condições coletivas de trabalho.

Implicações para o mercado e stakeholders

O debate coloca em rota de colisão a busca por qualidade de vida laboral — um dos pilares da proposta de redução da jornada — e a viabilidade econômica do setor imobiliário. Reguladores e legisladores enfrentam o desafio de equilibrar os benefícios sociais da medida com o risco de inflação imobiliária e a redução da oferta de habitação popular.

Para o consumidor, a perspectiva de imóveis mais caros pode significar o adiamento do sonho da casa própria ou a necessidade de buscar unidades menores e mais distantes dos centros urbanos. A indústria, por sua vez, sinaliza que a adaptação exigirá uma revisão profunda nas práticas de gestão de canteiros de obras em todo o país.

Incertezas sobre a transição

O desfecho da PEC, que ainda deve passar pela Comissão de Constituição e Justiça e pelo Senado, permanece como a principal variável. O setor aguarda para entender como as negociações coletivas poderão atenuar os impactos operacionais projetados, ou se a rigidez da nova legislação forçará uma mudança estrutural no modelo de construção.

O cenário exige monitoramento constante, tanto por parte dos investidores quanto pelas famílias que planejam a aquisição de um imóvel nos próximos anos. A transição para o modelo de 40 horas semanais, se consolidada, redefine as premissas de custo de capital e produtividade da construção civil brasileira.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney